Para o que eu quero comentar hoje, preciso contextualizar. E eis a contextualização. O roteiro prevê uma criança que aparecerá em duas cenas. Trata-se do filho de Hélio e Dadi chamado Juarez. Assim que a Mayara (a atriz que fará a Dadi) terminou de ler o roteiro, ela me perguntou se eu já tinha uma criança para o papel. Expliquei que a idéia inicial era usar um boneco, por duas razões simples: a primeira era que o boneco não iria chorar na locação; e segundo, seria muito mais fácil de conseguir. Porém nunca gostei de filmes que usam bonecos em lugar de crianças, a não ser aqueles bonecos hollyoodianos de silicone que choram, andam, etc., que obviamente, não tínhamos. Isso é o tipo de coisa que você não consegue enganar o público. Se usarmos um boneco, todo mundo que assistir ao filme vai saber. E se a gente usar choro de pós-produção, ai todo mundo vai ter certeza. Uma criança dá um realismo a mais para a cena e eu queria esse realismo. E foi nesse dia que a Mayara ficou de ver com sua irmã se ela toparia emprestar o Lucas (seu filho de 1 ano) para as duas cenas. A única dificuldade era que ela iria embora para Juiz de Fora, onde mora, uma semana antes das gravações. Então a Mayara ficou de convencê-la a adiar a viagem por uma semana.
Continuando a contextualização, no sábado à tarde, depois do almoço, como a Mayara não tinha cenas, foi buscar o Lucas. Assim que ela chegou começamos os preparativos para gravar as duas cenas em que teríamos o personagem do Juarez. Aliás, o cronograma estava super apertado, pois teríamos que gravar as duas cenas com o Lucas até às 21h, porque a passagem já estava comprada para Juiz de Fora e o ônibus sairia às 22h. Além disso, combinamos com o sr. Renato (dono de uma casa em que usaremos a fachada) e com a Sra. Magali (dona de outra casa em que usaremos também a fachada) que iríamos gravar até as 22h, no máximo. Como eram 6h da noite, mas por causa do horário de verão ainda era dia, filmamos primeiro a cena interna. E eis que começa a grande novela.
Logo quando formos montar a primeira cena do Lucas, o Paulo Henrique (diretor de fotografia) disse que não tinha como fazer do jeito que eu queria. Como assim? indaguei! É claro que tem, insistir. Na verdade, eu queria uma cena mais elaborada, em que se iniciaria com a tela totalmente negra, depois ouvir-se-ia um toque de telefone, em seguida, uma luz se acenderia em um quarto da casa projetando apenas um feixe de luz que iluminaria o telefone, e depois de mais dois toques a luz da sala se acenderia. A fotografia me disse que seria impossível, porque para iluminar o telefone o projetor de luz teria que ser colocado dentro do quarto. Só que precisávamos do quarto vazio, já que faríamos uma pan horizontal acompanhando o movimento da família (Hélio, Dadi e Juarez) até a porta. Bom, primeiro arredamos a mesinha do telefone bem para frente, até que o feixe de um fresnel pudesse alcançá-la. Assim que a luz da sala fosse acessa, a equipe da fotografia iria retirar, silenciosamente, o equipamento do quarto. Feito isso tinha a luz de dentro do quarto. Para isso, escondemos um refletor atrás da porta da sala com uma pessoa lá dentro para acender a luz assim que o telefone desse o terceiro toque. Com tudo pronto, chamamos os atores e começamos os ensaios. Só que o Lucas ficou assustado com tanta gente na sala e começou a chorar compulsivamente. Pedi a Mayara para deixá-lo com a mãe e ensaiamos com uma boneca. Depois de vários erros e acertos, e exaustivos ensaios até que sentíssemos que realmente estávamos prontos para filmar, pedi a Mayara para pegar o Juarez, passamos a cena mais umas duas vezes e depois gravamos. No final tudo ocorreu bem. Com certeza, essa foi uma das cenas mais demoradas e que deu mais trabalho para fazer. Ensaio da cena complicada. Gustavo Marquezini e Mayara Dornas.
Agora era hora de ir pra rua, gravar as duas externas na casa do sr. Renato e encerrar as atividades do dia. Contudo, quando começamos a montar o equipamento na rua começou a chover. Como não tinha jeito de fazer a cena na chuva, corremos para a casa do Karel para esconder o equipamento. E para não ficamos parados esperando, resolvemos gravar uma cena que era tranqüila. Só que eu não estava muito com a cabeça nessa cena. Estava mais preocupado com a chuva e quando ela passaria. Se ela não passasse seria o fim, pois o Lucas iria embora com a mãe e eu não sei o que seria do filme. Assim que terminamos a cena, que acabou demorando mais do que eu previa, a chuva já havia passado e fomos correndo montar o equipamento na casa do sr. Renato. Aliás, a chuva até acabou antes de terminarmos a cena e fui informado disso, mas não tinha como eu parar a cena no meio, quando a luz já estava posicionada, os atores concentrados e a câmera pronta para gravar. E há duas coisas interessantes nessa cena. A primeira talvez um erro de continuidade, porque não sei se o prato que foi colocado a comida na cena anterior foi o mesmo servido nessa cena, o que a princípio teria que ser. Além disso, coitado do Valetim (ator que faz o rapaz na estória), pois, além de esperar horas para fazer as suas únicas duas cenas do dia, teve que comer comida fria, pois o pessoal da produção esqueceu de esquentá-la para o menino. Na hora, com todo mundo gritando: “a chuva acabou”, “o Lucas tem que viajar”, “não vai dar tempo..”, nem tive tempo de prestar a atenção se a comida estava fria ou quente. Ai vai o meu pedido de desculpas para o Valetim. Da direita para a esquerda: Lucas Paio, Gustavo Marquezini, Paulo Henrique, Lucas Valetim e Douglas.
Bom, chegando à rua da casa do sr. Renato, quando terminamos de montar o equipamento, lá pelas 8:45h, iniciou-se um desespero geral, pois nada ainda estava pronto para filmar, começou a chover novamente e a vizinha, sra. Magali, se recusou a emprestar sua residência para filmarmos. E ela desistiu bem na hora de filmar. Havíamos conversado com ela pela manhã, no sábado mesmo, e ela disse que estava tudo ok. Bom, essas coisas acontecem. E o erro foi nosso de não ter pedido para ela assinar o termo de cessão de locação. Agora não tínhamos mais uma casa vizinha, e sem a casa vizinha não havia como filmar, e pior, tínhamos que arrumar a casa antes da chuva que já começava a engrossar e tudo isso em 15 minutos, pois era o tempo em que teríamos o Lucas conosco. Acabou que, quando um rapaz saiu de uma casa próxima, os produtores correram até lá e lhe pediram para usá-la, no ato, sem aviso prévio. Como ele só podia esperar por 15 minutos e nós também para filmar, foi caixa. Agora era só posicionar a câmera e terminar a iluminação.
Aqui tenho que colocar duas coisas importantes. A primeira é que há uma cena anterior, que havíamos gravado à tarde, em que o Gustavo Marquezini (o Hélio na estória) se dirige à casa da vizinha. Isso quando o filme estiver montado pode ficar sem sentido, porque ele se dirige à casa da Magali e não a nova casa. Mas, na hora, nem tive tempo de pensar nisso. Outra coisa foi com relação à iluminação. Como precisávamos montar o equipamento de luz e não tínhamos bateria para tal, tivemos que pedir ao sr. Renato um pouco da energia elétrica de sua casa.
Ainda não tínhamos terminado quando o tempo se esgotou. Não havíamos ensaiado o suficiente, e nem tinha ainda acertado o melhor lugar para a câmera quando todo mundo começou a me pressionar para rodar a cena. Foi ai que arredei a câmera 15 cm para trás, sem chamar o diretor de fotografia para medir o foco, e gritei que iríamos rodar. Rodamos uma que não tinha ficado nem de longe boa, pois muita coisa havia mudado e não tive tempo de passar as orientações necessárias para os atores. Como todo mundo sentiu que não havia ficado boa, houve uma cobrança para rodarmos uma segunda tomada. O que não estava nos planos e que eu aceitei arrependido, pois em minha opinião, não mudou nada do segundo. E ainda por cima corre o risco da cena ter ficado sem foco. De qualquer forma, depois da pressão e do desespero que foi, ter conseguido rodar a cena com o Lucas foi uma vitória. Passamos do horário previsto 15 minutos e a Mayara tinha 45 minutos para levar a irmã até a rodoviária.
Como todo o aparato estava armado e tínhamos apenas 1 cena para terminarmos na casa do sr. Renato, resolvemos filmá-la naquele exato momento e finalizar todas as cenas noturnas previstas no roteiro. Só havia um detalhe, era preciso ter um carro, o que nós não tínhamos. Eis que um Opala pára umas duas ruas abaixo e vejo a produção sair correndo atrás do motorista para ele não só emprestar o carro como atuar no filme. E como, pela posição da câmera, não iria aparecer o motorista, aquilo caiu como uma luva. Até que o filho do sr. Renato apareceu gritando e perguntando quem iria pagar a conta de energia de sua casa. Apesar do susto que tomamos com a cena, dissemos que quando terminássemos iríamos deixar um dinheiro e que isso não seria problema ou, de forma alguma, geraria uma briga. Ele entrou em casa ainda ríspido e foi recebido pela mãe, esposa do sr. Renato, e que aqui, por uma falta terrível, não me lembro de seu nome, aos xingos, dizendo que aquela não era a educação que ela havia lhe dado.
Com a chuva caindo em pingos fortes, com o sr. Renato nervoso com a cena do filho e com problemas de coração dizendo que precisava com urgência repousar-se, e com o cara do Opala exaltado pela demora em rodar a cena, gritei ação, sem elaborar muito a coisa, com câmera parada e uma luz básica simulando um poste. E não foi que na hora do Opala sair de cena, o motorista, com certeza nervoso com sua primeira aparição em um filme, não subiu com o carro no meio fio e quase o deixa morrer, numa cena em que teria que sair em velocidade para o meio da rua, numa situação de fuga. Mais nessa hora já estava esgotado demais para achar qualquer coisa e ter terminado essa cena foi o maior alívio do mundo.
Gustavo Marquezini e Lucas Valentim na última cena do sábado.
No final, o cara do Opala nem voltou para se despedir. Deve ter ficado com tanta vergonha de ter subido no meio fio que nem voltou. Depois, fomos conversar com sr. Renato e deixar o dinheiro para a energia, porém ele recusou com um pedido de desculpas pela encenação do filho, que de acordo com a esposa: “ele tinha tomado umas cervejinhas...”. Só que, na verdade, era a gente que tinha que pedir desculpas, que além de amolar durante a noite e roubar a energia, não os deixamos dormir. Em seguida, juntamos os equipamentos, guardamos tudo na casa do Karel e formos para um bar relaxar... Havia muito trabalho ainda no domingo.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Post 9: Sobre caos, aflição e desespero
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário