sábado, 10 de janeiro de 2009

Post 10: Sobre um domingo tranqüilo


Combinamos no domingo, às 8h da manhã, para terminar as últimas 4 cenas que restavam para concluir as filmagens. Analisando agora, o sábado foi bastante proveitoso. A meta era deixar apenas 3 cenas para o domingo, mas depois de tudo o que aconteceu, terem restado apenas 4 foi um feito e tanto.

Das 4 cenas que restavam 3 eram à noite. Para tanto, tivemos que fechar todas as janelas e portas e escurecer bem a casa do Karel. Feito isso, posicionei a câmera e a fotografia fez a iluminação, que ficou muito boa por sinal. Chamamos os atores e começamos os ensaios. Estava até estranhando um pouco, confesso. Tudo estava tranqüilo demais. Ninguém estava me pressionando por causa do tempo, da chuva, etc. Até deu tempo de passar a cena umas três ou quatro vezes antes de gravar e deu para fazer as marcações de posições do atores. Se eu aprendi uma coisa no sábado, foi como não fazer um filme sob pressão. Quando você tem tempo para instruir os atores, marcar posição, corrigir enquadramento, sem pressa e sem atropelo, as chances de algo sair errado durante a gravação são mínimas. E para minha sorte, essa tranqüilidade reinou durante todo o domingo.

Bom, a primeira cena do domingo se passava numa cozinha, e lá aconteceria uma curta discussão entre o casal protagonista do filme. Antes um pequeno comentário. Durante os ensaios dessa cena a Mayara (a Dadi da estória) tinha o seguinte texto: “Quem é o rapaz, Hélio”. Contudo, involuntariamente, ela sempre dizia: “Quem é o cara, Hélio”. Infelizmente, uma mãe de família, recatada, etc, dificilmente diria “cara” ou invés de “rapaz”. Assim sendo, durante os ensaios ela corrigiu isso. Contudo, no dia das gravações ela não conseguia dizer “rapaz” ao invés de “cara”. E foram vários “CORTA”, até que ela introduzisse o “rapaz” em seu texto. Um dos motivos que imagino ter gerado a confusão foi sua versatilidade durantes os ensaios em fazer vários personagens. Sempre que um ator faltava, ela logo se oferecia de cara, toda animada, para fazer o personagem. E todos os personagens, exceto o dela, é claro, diziam muitas gírias como: “cara”, por exemplo. Acho que de certa forma isso acabou influenciando.

Gustavo Marquezini e Mayara Dornas. Note a Janela coberta por uma lona.

Outra coisa engraçada era o som. Coitado do Lucas Paio (técnico de som), ele sofreu demais com o equipamento. Além de ficar trocando de pilha toda hora, pois eu vi a produção comprando uma caixa de pilhas para ele, raramente o equipamento funcionava. Nessa cena inclusive, sempre quando eu gritava: “SOM”, ao invés dele falar: “OK”, ele gritava de volta: “FUDIDO”. E isso aconteceu várias vezes. E lá ficávamos esperando ele operar o milagre de fazer o equipamento funcionar naquele exato instante.

Mas porque gravar o som se o filme seria dublado? Bom, por duas razões muito simples. A primeira para ter som de cobertura. Ou seja, som ambiente como barulho de passos, carros, pessoas conversando, que moldam a cena. Imagina uma cena em um bar somente com o som da conversa dos atores, sem som de carro, pessoas conversando, copos, etc. Outra razão era para orientar os atores durante a dublagem. E para isso era preciso que ele gravasse o som no momento exato que tivéssemos gravando a cena.

Terminada a cena, que foi muito tranqüila, fomos fazer mais uma com os dois atores, Mayara Dornas e Gustavo Marquezini (o Hélio na estória). Inclusive, a Mayara havia me dito que essa era a cena dela mais difícil no filme, principalmente por ser sem falas, em que os diálogos teriam que ser ditos com olhares. E realmente, assistindo aos ensaios, pude perceber que essa era a cena em que a naturalidade dos atores seria mais difícil de ser conseguida. Mas aos poucos o Gustavo e a Mayara foram adquirindo intimidade e tudo foi ficando mais natural. No primeiro ensaio eles apenas ficaram sentados no sofá assistindo televisão, sem ao menos se tocarem. No segundo, já se deram as mãos. E assim por diante foram se aproximando, até que chegaram a posição ideal, que era ela com os pé sobre o sofá, encostada sobre o corpo dele. Era a composição perfeita, pois o casal tinha química e agora passava a naturalidade exigida pela cena. E acabou ficando muito boa. Só tive que mudar a direção de um enquadramento por causa da fotografia, mas a intenção da cena não foi perdida.

Gustavo e Mayara.

Depois do almoço, voltamos para gravar a cena que eu considerava a mais complicada do dia. Principalmente porque iríamos gravá-la em um estúdio de música que tinha na casa do Karel, um lugar apertado e muito quente. Voltando aos ensaios antes de começar a falar dessa cena propriamente dita, o Lucas Valetim (o rapaz na estória) e o Gustavo Marquezini estavam muito tímidos no começo, e eu sentia que eles não conseguiam dar a veracidade que a cena exigia. Até que em um ensaio, o Valentim começou a cena empurrando o Gustavo e o Gustavo continuou a cena no mesmo ritmo, empurrando também o Valetim e eles encarnaram um sentimento de desespero que ficou perfeito para o que eu queria. Depois disso, durante os demais ensaios, focamos nesses empurrões e no sentimento de desespero. O engraçado foi que no dia da filmagem, o Valentim estava um pouco nervoso e não conseguiu reproduzir o desespero dos ensaios. E além disso, os dois estavam errando alguns detalhes que começaram a aborrecer um ao outro. E nisso eles começaram a discutir de verdade na locação. Eu até vi o Douglas (assistente de direção) pedindo calma para os atores, mas o Pipo (câmera) interveio dizendo para deixá-los, pois era desse espírito que nós precisávamos para a cena.

Lucas Valetim e Gustavo.

Terminada, faltava apenas a última cena, a da “desova”. Era uma cena em que o Gustavo Marquezini seria jogado de um carro em movimento. Quando comentei com ele da cena, no dia em que nos conhecemos, ele me disse que não tinha problema algum e que faria qualquer coisa. E realmente o Gustavo é esse tipo de ator que topa tudo, não tem medo de nada e gosta muito do que faz. Só que eu já tinha mudado os planos no roteiro decupado e a cena dele sendo arremessado do carro não era mais necessária. Assim, chegamos à praça em Santa Tereza e começamos a montar o equipamento. No entanto, o Gustavo entrou no fusca que estava sendo dirigido pelo Douglas e eles simularam a cena da “desova”. Ninguém esperava aquilo e quando terminou, eu disse: “puta que pariu, ficou muito bom, temos que rodar isso”. Coitado do Gustavo, teve que se jogar do carro umas três ou quadro vezes até que estivesse tudo preparado para filmar. E a cada vez que ele se jogava, se machucava e ia ficando com medo. No final, a cena gravada não foi tão boa como a primeira, em que ele se jogou do carro ainda sem medo e sem as dores.

Gustavo sendo jogado do carro.

Quando terminamos foi um verdadeiro alívio. Havíamos conseguido gravar todas as cenas do filme. Para completar nossa alegria, havia várias pessoas nas janelas das casas assistindo e do outro lado da rua começou a se formar um conglomerado de curiosos. No final, todos bateram palmas, empolgados. Nós achamos um barato. Era nosso momento de glória.

Só mais duas coisas para fechar. A primeira foi a versatilidade da Janaína Salgado. Todo mundo trabalhou muito no filme, mas a Janaína foi um fato curioso. Como a turma era pequena acabou que a Janaína foi acumulando funções durante a pré-produção e também durante as filmagens. No final, ela acabou trabalhando como still, maquiadora, continuista, e como ela fazia a continuidade, acabou sendo vital para a direção de arte, e acho que também ajudou no figurino. Coitada, por ela assumir esse tanto de função, toda hora eu ficava chamando: “Janaína, still”, “Janaína, isso tava aqui mesmo?”, “JANAÍNA!”. Via a menina o tempo todo correndo de um lado para o outro desesperada. Mas tenho certeza que ela achou divertido.

Super Janaína, mil e uma utilidades.

Por último, uma preocupação para a montagem. Como eu decidir rodar um filme grande com um rolo de 11 minutos, na última cena o rolo acabou. Para minha sorte, exatamente na cena da “desova”. Ainda bem que deu pra rodar a cena toda. Só que não deu pra fazer nenhuma cena de cobertura. Eu estou sem imagens para fazer a transição de uma cena para outra na hora da montagem. E se eu usar só as imagens do negativo as transições serão muito bruscas. Determinadas cenas dependem uma cena de cobertura para a transição ser mais suave. Muitas vezes até para contextualizar o público que estiver assistindo ao filme. Ainda não sei o que eu vou fazer com relação a isso. Talvez rodar algumas cenas em digital e tentar usá-las, mas não sei se esteticamente isso vai funcionar. Bom, de qualquer forma, agora é aguardar o resultado depois do filme revelado e telecinado. Dia 12, segunda-feira, começa a edição. Até lá, merecidas férias...

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