Este post realmente será o último e prometo, bastante conciso. Senti-me na obrigação de fazer os agradecimentos, por isso, estou aqui novamente na frente do computador. Primeiro gostaria de agradecer o Cláudio Costa Val pelo incentivo e por acreditar e apostar no filme. Gostaria de agradecer também os professores da Escola Livre de Cinema, em especial o Sérgio Gomes, principalmente pelo apoio e pelo monitoramento no set. Queria agradecer também a turma do 1° período, noite, pelo empenho, dedicação e entrega ao filme e com quem espero empreender novos e inúmeros outros trabalhos. Queria agradecer meus amigos mais próximos que me apoiaram do início ao fim, com palavras de incentivo e estímulo. E quero agradecer também todos que, mesmo sem conhecer, assistiram e gostaram do filme...
Até o próximo blog, espero...
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Post 20: o derradeiro...
Post 14: Sobre lançamento, reencontro e nostalgia
E eis que chega a véspera do dia do lançamento e o filme, conforme previsão de todos e minha também, não está finalizado. O que resta fazer? Nada a não ser aproveitar até o último minuto que temos para finalizá-lo. E isso significa passar a noite de sexta-feira em claro, virando a madrugada. Nessa luta participaram eu, o Paulo Henrique e o Douglas Ribeiro (assistente de direção), além do Cláudio Costa Val, é claro. Faltavam apenas alguns pequenos ajustes como colocar o filme na seqüência do roteiro, inserir a trilha sonora que já havia sido definida, os créditos, etc. Nada muito demorado de ser feito. Contudo, aquele acabamento final, que a gente queria dar ao filme, teria que ser feito outro dia. Ou seja, estávamos lançando a versão 1.0.
Terminamos o filme às 7h da manhã aproximadamente, sendo que o filme seria lançado às 9:30h. Tudo pronto, o Douglas Ribeiro me levou em casa, tomei um banho, troquei de rouba e subi para o Belas Artes, local de estréia do filme. Agora era um momento de descontração, para rever os amigos e jogar conversa fora. Mas não escondo que estava nervoso e queria saber qual seria a reação do público ao assistir ao filme. Apesar de todas as limitações técnicas e financeiras, acreditava que tinha uma boa estória e que isso poderia, de alguma forma, sensibilizar, além, é claro, de todo o esforço da equipe para salvar o filme de todos os problemas que surgiram durante o percurso.
Na verdade, na sessão seriam exibidos 4 filmes, todos produzidos pela Escola Livre de Cinema, no segundo semestre de 2008. O “Aquele que está lá” foi o segundo a ser exibido. Assisti ao filme apreensivo e de vez ou outra olhava para trás para ver a reação do público. Ao final do filme, palmas contidas. Percebi somente algumas pessoas xingando o personagem do Raul com o amigo ao lado. Nada além disso. A principio não sabia se aquilo fora ruim ou bom. Depois veio o filme que roubou a cena e atenção do público. O documentário chamado “Damas” dirigido por Luisa Moraes e Mariana Mattos, que apresenta o retrato de 4 mulheres que tem no black music uma filosofia de vida. Muito bom o filme, sensível e divertido. Vale a pena assistir. Quem quiser pode ir até a Escola Livre de Cinema e adquirir o DVD.
No fim da sessão, me veio aquela sensação de alívio pelo fim desse trabalho tão custoso e que me tomou tanto tempo. Valeu a pena, eu acho. Porém, eu esperava uma recepção melhor para o filme, admito. E isso acabou me atormentado o sono durante alguns dias. E para diminuir meu complexo de culpa, a sessão de lançamento do filme acabou não sendo seu último suspiro de vida nesse mundo. Passado alguns dias fui convidado para dar uma entrevista no programa “curtaagora” do canal universitário, onde também foi exibido o curta. Depois disso, mandei o filme para alguns festivais de cinema, mas em nenhum ele foi aprovado. Para mim até que isso não foi surpresa. Nesse quesito, meu senso crítico não me deixou me enganar.
De qualquer forma, eu acho que valeu para um primeiro trabalho. A experiência foi bacana e as amizades, durante a pré e pós produção se solidificaram ainda mais entre a turma do 1 período, noite, da Escola Livre de Cinema.
E sem mais delongas, me despeço. Coloquei o filme no youtube e estou postando ele aqui no blog. Sintam-se à vontade para criticar, elogiar, viajar, filosofar, xingar, etc., etc., etc....
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Post 13: Sobre sincronismos de fala, doença e atrasos
Muita coisa aconteceu na minha vida nos últimos meses, inclusive o lançamento do filme e pensei seriamente se iria postar mais algum comentário no blog. A pedido de alguns amigos resolvi sentar na frente do computador e escrever esses dois últimos posts para encerrar o blog e também a saga do curta “Aquele que está lá”.
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Depois que o Paulo Henrique (montador) levou a cópia do filme no HD externo e a transferiu para a ilha de edição começou uma verdadeira batalha com o sincronismo. A princípio, a idéia era chamar todos os atores para dublarem todas as cenas, contudo o próprio Paulo Henrique sugeriu que a gente usasse o som off. O som off é o áudio pós-cena captado pelo responsável pelo som direto durante as filmagens. Depois de filmada a cena, o técnico do áudio pede silêncio no set e grava todo o diálogo dos atores de novo, só que agora, no nosso caso, sem o barulho ensurdecedor da câmera. E era justamente esse áudio que o Paulo Henrique queria aproveitar nas cenas. Sentamos na ilha de edição e começamos a sincronização, fala por fala, palavra por palavra. Além de não ser um trabalho fácil, o dia não rendia e ao final de três ou quatro horas havíamos terminado de compor a fala de apenas 30 segundos, quando nem isso. Numa cena de 2 minutos, levávamos mais de uma semana para terminá-la. E ainda faltando os sons de cobertura, como de televisão, carro, passos, portão abrindo, tiros, etc.
Mas isso não é nem o começo. Durante o período de montagem passei mal e fiquei internado no hospital por uma noite. Depois do susto e já recuperado voltei para a Escola Livre de Cinema para dar prosseguimento à edição. Porém, para completar o meu azar, não foi possível editar o filme nesse dia, pois a luz havia acabado por causa de uma tempestade no bairro Santa Tereza. Já pensei, meu Deus, esse filme não vai sair, não vai dar tempo. E para confirmar a minha onda de azar, não sei se já comentei esse problema aqui, mas não havia o som off de todos os diálogos do filme. Assim, seria preciso dublar duas cenas específicas. Só que um dos atores não estava em Belo Horizonte. Havia viajado para Portugal a trabalho.
Tudo isso começou a me assustar. Não será isso um sinal? Deixada a superstição de lado, continuamos a luta pelo sincronismo, isso com o Cláudio (produtor executivo) nos dizendo que estávamos atrasados e não conseguiríamos entregar a cópia pronta para o dia do lançamento. Para dizer a verdade, nem eu acreditava que iríamos entregar a cópia finalizada e pronta no dia do lançamento.
Como o trabalho estava atrasado e eu um pouco estressado com tudo que estava acontecendo, tirei quatro dias de folga nesse interstício e fui para Tiradentes, na mostra de cinema. Da mostra, recomendo dois filmes: “Dossiê Rê Bordosa” e “Os filmes que não fiz”. Dois excelentes curtas.
Voltando para Belo Horizonte, o Paulo já havia terminado de sincronizar todos os diálogos, exceto das duas cenas que não tínhamos o áudio. Como, para minha sorte, o Lindomar Oliveira (Raul) já havia voltado de Portugal, convocamos os atores e realizamos a dublagem. Depois eu acabei me arrependendo, pois destoou bastante do resto do áudio. Mas enfim, prefiro pensar que não tinha outra solução.
Com todo o áudio já montado restava apenas as duas falhas de continuidade para corrigir. Bom, com um passe de mágica o Paulo Henrique mais o Pipo (câmera) bolaram uma solução e sumiram o táxi que aparecia em uma cena. Ou seja, um dos problemas cabeludos já havia sido resolvido e agora só faltava um que, no final das contas, resolvi manter no filme. Para uma pessoa mais atenta esse erro não vai passar despercebido, como outros ao longo do curta, mas eu acho que a maioria das pessoas que o assistirem não vão notar a descontinuidade e o filme vai rolar numa boa.
Contudo alguns pequenos ajustes ainda precisavam ser feitos. Mas deixo essa para o próximo post.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Post 11: Sobre montagem, granulação e pequenos grandes problemas
Confesso que já estava curioso para ver o material bruto das filmagens e conter a ansiedade até o dia 12 de janeiro não foi fácil. Mas, enfim chegou o dia. Chequei na Escola Livre de Cinema e o Cláudio (professor e dono da escola) já foi me entregando a fita VHS em que estava o bruto, com as imagens na seqüência das filmagens. Coloquei a fita no videocassete, apaguei a luz e apertei o play. Assisti sozinho aos 10 minutos de filme. Confesso que senti um pequeno mal estar ao final da última cena. Aos poucos a turma foi chegando e cada vez que alguém assistia, eu via o filme novamente.
Antes de colocar a fita, o Cláudio já havia me avisado que o filme estava um pouco granulado. Mas quando vi a primeira imagem parecia que havíamos gravado em Super 8. Quando o Cláudio fez uma piadinha dizendo pra gente aumentar o som da televisão, porque no cinema o som é gravado separado da imagem, e, obviamente, aquela cópia em VHS não tinha som, eu quase peguei carona na piada dizendo: “aproveita para colocar uma antena na TV, pois está chuviscando muito”. Tudo bem que na cópia em VHS os grãos são mais acentuados, e depois na montagem há como eliminar um pouco o excesso, mas minha primeira impressão foi assustadora.
Quando a turma já estava toda reunida começamos a apontar os problemas. Principalmente dois. Um erro de continuidade e um bendito de um táxi que apareceu na cena, na hora exata que estávamos gravado com a câmera 16mm. Para ser sincero, eu não lembro de ter visto esse táxi passado no dia da filmagem. Eu até escutei alguém comentando alguma coisa sobre um táxi, mas foi tanto desespero no dia que nem me atinei para isso. Depois a Barbara me contou que o taxista teve o trabalho de parar o táxi próximo ao cone da BHTRANS que fechava a rua, sair do carro, arredar o cone para o lado, entrar no carro novamente e passar na rua no exato instante da gravação. É muito azar.
Depois do debate da turma, a conclusão foi que dava para consertar. Para relaxar, fomos para um buteco em Santa Tereza e bebemos uma de leve.
No dia seguinte, o Osvado (assistente de câmera) levou o DVD com a cópia do making off do segundo dia de gravações e uma cópia do filme editado por ele. Nessa cópia ele propôs uma mudança na seqüência narrativa do filme, que eu assisti bastante receoso. Principalmente por achar que naquela montagem a idéia que eu queria passar com o filme se perderia em meio uma “violência gratuita”, por assim dizer, não querendo contar mais sobre a estória para não perder a graça do filme. De qualquer forma, era uma proposta e eu tinha que estudá-la. Levei os DVDs para casa e comecei a assistir compulsivamente.
Antes disso, era hora de passar a cópia telecinada para dentro do computador e começar a edição. Só que, como tudo no mundo da tecnologia, o computador não conseguia reconhecer o cabo da câmera minidv em que o filme estava. Depois de uma luta de 3 horas, aproximadamente, o Paulo Henrique (diretor de fotografia e agora montador) e o Osvaldo, vencidos pela máquina, desistiram. O Paulo Henrique resolveu levar a fita para casa e baixar o filme lá, levando-o no dia seguinte em um HD externo.
Bom, já sei que amanhã começa a luta. Além desses problemas, temos que pensar nas transições de cena, algo que já me preocupava desde as filmagens, e também em sincronismos de fala, cor, luz, elementos de som para compor a cena, etc.
Trabalho não vai faltar. Já estou vendo que vou dormir muito pouco até o dia do lançamento do filme.
sábado, 10 de janeiro de 2009
Post 10: Sobre um domingo tranqüilo
Combinamos no domingo, às 8h da manhã, para terminar as últimas 4 cenas que restavam para concluir as filmagens. Analisando agora, o sábado foi bastante proveitoso. A meta era deixar apenas 3 cenas para o domingo, mas depois de tudo o que aconteceu, terem restado apenas 4 foi um feito e tanto.
Das 4 cenas que restavam 3 eram à noite. Para tanto, tivemos que fechar todas as janelas e portas e escurecer bem a casa do Karel. Feito isso, posicionei a câmera e a fotografia fez a iluminação, que ficou muito boa por sinal. Chamamos os atores e começamos os ensaios. Estava até estranhando um pouco, confesso. Tudo estava tranqüilo demais. Ninguém estava me pressionando por causa do tempo, da chuva, etc. Até deu tempo de passar a cena umas três ou quatro vezes antes de gravar e deu para fazer as marcações de posições do atores. Se eu aprendi uma coisa no sábado, foi como não fazer um filme sob pressão. Quando você tem tempo para instruir os atores, marcar posição, corrigir enquadramento, sem pressa e sem atropelo, as chances de algo sair errado durante a gravação são mínimas. E para minha sorte, essa tranqüilidade reinou durante todo o domingo.
Bom, a primeira cena do domingo se passava numa cozinha, e lá aconteceria uma curta discussão entre o casal protagonista do filme. Antes um pequeno comentário. Durante os ensaios dessa cena a Mayara (a Dadi da estória) tinha o seguinte texto: “Quem é o rapaz, Hélio”. Contudo, involuntariamente, ela sempre dizia: “Quem é o cara, Hélio”. Infelizmente, uma mãe de família, recatada, etc, dificilmente diria “cara” ou invés de “rapaz”. Assim sendo, durante os ensaios ela corrigiu isso. Contudo, no dia das gravações ela não conseguia dizer “rapaz” ao invés de “cara”. E foram vários “CORTA”, até que ela introduzisse o “rapaz” em seu texto. Um dos motivos que imagino ter gerado a confusão foi sua versatilidade durantes os ensaios em fazer vários personagens. Sempre que um ator faltava, ela logo se oferecia de cara, toda animada, para fazer o personagem. E todos os personagens, exceto o dela, é claro, diziam muitas gírias como: “cara”, por exemplo. Acho que de certa forma isso acabou influenciando.
Gustavo Marquezini e Mayara Dornas. Note a Janela coberta por uma lona.
Outra coisa engraçada era o som. Coitado do Lucas Paio (técnico de som), ele sofreu demais com o equipamento. Além de ficar trocando de pilha toda hora, pois eu vi a produção comprando uma caixa de pilhas para ele, raramente o equipamento funcionava. Nessa cena inclusive, sempre quando eu gritava: “SOM”, ao invés dele falar: “OK”, ele gritava de volta: “FUDIDO”. E isso aconteceu várias vezes. E lá ficávamos esperando ele operar o milagre de fazer o equipamento funcionar naquele exato instante.
Mas porque gravar o som se o filme seria dublado? Bom, por duas razões muito simples. A primeira para ter som de cobertura. Ou seja, som ambiente como barulho de passos, carros, pessoas conversando, que moldam a cena. Imagina uma cena em um bar somente com o som da conversa dos atores, sem som de carro, pessoas conversando, copos, etc. Outra razão era para orientar os atores durante a dublagem. E para isso era preciso que ele gravasse o som no momento exato que tivéssemos gravando a cena.
Terminada a cena, que foi muito tranqüila, fomos fazer mais uma com os dois atores, Mayara Dornas e Gustavo Marquezini (o Hélio na estória). Inclusive, a Mayara havia me dito que essa era a cena dela mais difícil no filme, principalmente por ser sem falas, em que os diálogos teriam que ser ditos com olhares. E realmente, assistindo aos ensaios, pude perceber que essa era a cena em que a naturalidade dos atores seria mais difícil de ser conseguida. Mas aos poucos o Gustavo e a Mayara foram adquirindo intimidade e tudo foi ficando mais natural. No primeiro ensaio eles apenas ficaram sentados no sofá assistindo televisão, sem ao menos se tocarem. No segundo, já se deram as mãos. E assim por diante foram se aproximando, até que chegaram a posição ideal, que era ela com os pé sobre o sofá, encostada sobre o corpo dele. Era a composição perfeita, pois o casal tinha química e agora passava a naturalidade exigida pela cena. E acabou ficando muito boa. Só tive que mudar a direção de um enquadramento por causa da fotografia, mas a intenção da cena não foi perdida.
Gustavo e Mayara.
Depois do almoço, voltamos para gravar a cena que eu considerava a mais complicada do dia. Principalmente porque iríamos gravá-la em um estúdio de música que tinha na casa do Karel, um lugar apertado e muito quente. Voltando aos ensaios antes de começar a falar dessa cena propriamente dita, o Lucas Valetim (o rapaz na estória) e o Gustavo Marquezini estavam muito tímidos no começo, e eu sentia que eles não conseguiam dar a veracidade que a cena exigia. Até que em um ensaio, o Valentim começou a cena empurrando o Gustavo e o Gustavo continuou a cena no mesmo ritmo, empurrando também o Valetim e eles encarnaram um sentimento de desespero que ficou perfeito para o que eu queria. Depois disso, durante os demais ensaios, focamos nesses empurrões e no sentimento de desespero. O engraçado foi que no dia da filmagem, o Valentim estava um pouco nervoso e não conseguiu reproduzir o desespero dos ensaios. E além disso, os dois estavam errando alguns detalhes que começaram a aborrecer um ao outro. E nisso eles começaram a discutir de verdade na locação. Eu até vi o Douglas (assistente de direção) pedindo calma para os atores, mas o Pipo (câmera) interveio dizendo para deixá-los, pois era desse espírito que nós precisávamos para a cena.
Lucas Valetim e Gustavo.
Terminada, faltava apenas a última cena, a da “desova”. Era uma cena em que o Gustavo Marquezini seria jogado de um carro em movimento. Quando comentei com ele da cena, no dia em que nos conhecemos, ele me disse que não tinha problema algum e que faria qualquer coisa. E realmente o Gustavo é esse tipo de ator que topa tudo, não tem medo de nada e gosta muito do que faz. Só que eu já tinha mudado os planos no roteiro decupado e a cena dele sendo arremessado do carro não era mais necessária. Assim, chegamos à praça em Santa Tereza e começamos a montar o equipamento. No entanto, o Gustavo entrou no fusca que estava sendo dirigido pelo Douglas e eles simularam a cena da “desova”. Ninguém esperava aquilo e quando terminou, eu disse: “puta que pariu, ficou muito bom, temos que rodar isso”. Coitado do Gustavo, teve que se jogar do carro umas três ou quadro vezes até que estivesse tudo preparado para filmar. E a cada vez que ele se jogava, se machucava e ia ficando com medo. No final, a cena gravada não foi tão boa como a primeira, em que ele se jogou do carro ainda sem medo e sem as dores.
Gustavo sendo jogado do carro.
Quando terminamos foi um verdadeiro alívio. Havíamos conseguido gravar todas as cenas do filme. Para completar nossa alegria, havia várias pessoas nas janelas das casas assistindo e do outro lado da rua começou a se formar um conglomerado de curiosos. No final, todos bateram palmas, empolgados. Nós achamos um barato. Era nosso momento de glória.
Só mais duas coisas para fechar. A primeira foi a versatilidade da Janaína Salgado. Todo mundo trabalhou muito no filme, mas a Janaína foi um fato curioso. Como a turma era pequena acabou que a Janaína foi acumulando funções durante a pré-produção e também durante as filmagens. No final, ela acabou trabalhando como still, maquiadora, continuista, e como ela fazia a continuidade, acabou sendo vital para a direção de arte, e acho que também ajudou no figurino. Coitada, por ela assumir esse tanto de função, toda hora eu ficava chamando: “Janaína, still”, “Janaína, isso tava aqui mesmo?”, “JANAÍNA!”. Via a menina o tempo todo correndo de um lado para o outro desesperada. Mas tenho certeza que ela achou divertido.Super Janaína, mil e uma utilidades.
Por último, uma preocupação para a montagem. Como eu decidir rodar um filme grande com um rolo de 11 minutos, na última cena o rolo acabou. Para minha sorte, exatamente na cena da “desova”. Ainda bem que deu pra rodar a cena toda. Só que não deu pra fazer nenhuma cena de cobertura. Eu estou sem imagens para fazer a transição de uma cena para outra na hora da montagem. E se eu usar só as imagens do negativo as transições serão muito bruscas. Determinadas cenas dependem uma cena de cobertura para a transição ser mais suave. Muitas vezes até para contextualizar o público que estiver assistindo ao filme. Ainda não sei o que eu vou fazer com relação a isso. Talvez rodar algumas cenas em digital e tentar usá-las, mas não sei se esteticamente isso vai funcionar. Bom, de qualquer forma, agora é aguardar o resultado depois do filme revelado e telecinado. Dia 12, segunda-feira, começa a edição. Até lá, merecidas férias...
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Post 9: Sobre caos, aflição e desespero
Para o que eu quero comentar hoje, preciso contextualizar. E eis a contextualização. O roteiro prevê uma criança que aparecerá em duas cenas. Trata-se do filho de Hélio e Dadi chamado Juarez. Assim que a Mayara (a atriz que fará a Dadi) terminou de ler o roteiro, ela me perguntou se eu já tinha uma criança para o papel. Expliquei que a idéia inicial era usar um boneco, por duas razões simples: a primeira era que o boneco não iria chorar na locação; e segundo, seria muito mais fácil de conseguir. Porém nunca gostei de filmes que usam bonecos em lugar de crianças, a não ser aqueles bonecos hollyoodianos de silicone que choram, andam, etc., que obviamente, não tínhamos. Isso é o tipo de coisa que você não consegue enganar o público. Se usarmos um boneco, todo mundo que assistir ao filme vai saber. E se a gente usar choro de pós-produção, ai todo mundo vai ter certeza. Uma criança dá um realismo a mais para a cena e eu queria esse realismo. E foi nesse dia que a Mayara ficou de ver com sua irmã se ela toparia emprestar o Lucas (seu filho de 1 ano) para as duas cenas. A única dificuldade era que ela iria embora para Juiz de Fora, onde mora, uma semana antes das gravações. Então a Mayara ficou de convencê-la a adiar a viagem por uma semana.
Continuando a contextualização, no sábado à tarde, depois do almoço, como a Mayara não tinha cenas, foi buscar o Lucas. Assim que ela chegou começamos os preparativos para gravar as duas cenas em que teríamos o personagem do Juarez. Aliás, o cronograma estava super apertado, pois teríamos que gravar as duas cenas com o Lucas até às 21h, porque a passagem já estava comprada para Juiz de Fora e o ônibus sairia às 22h. Além disso, combinamos com o sr. Renato (dono de uma casa em que usaremos a fachada) e com a Sra. Magali (dona de outra casa em que usaremos também a fachada) que iríamos gravar até as 22h, no máximo. Como eram 6h da noite, mas por causa do horário de verão ainda era dia, filmamos primeiro a cena interna. E eis que começa a grande novela.
Logo quando formos montar a primeira cena do Lucas, o Paulo Henrique (diretor de fotografia) disse que não tinha como fazer do jeito que eu queria. Como assim? indaguei! É claro que tem, insistir. Na verdade, eu queria uma cena mais elaborada, em que se iniciaria com a tela totalmente negra, depois ouvir-se-ia um toque de telefone, em seguida, uma luz se acenderia em um quarto da casa projetando apenas um feixe de luz que iluminaria o telefone, e depois de mais dois toques a luz da sala se acenderia. A fotografia me disse que seria impossível, porque para iluminar o telefone o projetor de luz teria que ser colocado dentro do quarto. Só que precisávamos do quarto vazio, já que faríamos uma pan horizontal acompanhando o movimento da família (Hélio, Dadi e Juarez) até a porta. Bom, primeiro arredamos a mesinha do telefone bem para frente, até que o feixe de um fresnel pudesse alcançá-la. Assim que a luz da sala fosse acessa, a equipe da fotografia iria retirar, silenciosamente, o equipamento do quarto. Feito isso tinha a luz de dentro do quarto. Para isso, escondemos um refletor atrás da porta da sala com uma pessoa lá dentro para acender a luz assim que o telefone desse o terceiro toque. Com tudo pronto, chamamos os atores e começamos os ensaios. Só que o Lucas ficou assustado com tanta gente na sala e começou a chorar compulsivamente. Pedi a Mayara para deixá-lo com a mãe e ensaiamos com uma boneca. Depois de vários erros e acertos, e exaustivos ensaios até que sentíssemos que realmente estávamos prontos para filmar, pedi a Mayara para pegar o Juarez, passamos a cena mais umas duas vezes e depois gravamos. No final tudo ocorreu bem. Com certeza, essa foi uma das cenas mais demoradas e que deu mais trabalho para fazer. Ensaio da cena complicada. Gustavo Marquezini e Mayara Dornas.
Agora era hora de ir pra rua, gravar as duas externas na casa do sr. Renato e encerrar as atividades do dia. Contudo, quando começamos a montar o equipamento na rua começou a chover. Como não tinha jeito de fazer a cena na chuva, corremos para a casa do Karel para esconder o equipamento. E para não ficamos parados esperando, resolvemos gravar uma cena que era tranqüila. Só que eu não estava muito com a cabeça nessa cena. Estava mais preocupado com a chuva e quando ela passaria. Se ela não passasse seria o fim, pois o Lucas iria embora com a mãe e eu não sei o que seria do filme. Assim que terminamos a cena, que acabou demorando mais do que eu previa, a chuva já havia passado e fomos correndo montar o equipamento na casa do sr. Renato. Aliás, a chuva até acabou antes de terminarmos a cena e fui informado disso, mas não tinha como eu parar a cena no meio, quando a luz já estava posicionada, os atores concentrados e a câmera pronta para gravar. E há duas coisas interessantes nessa cena. A primeira talvez um erro de continuidade, porque não sei se o prato que foi colocado a comida na cena anterior foi o mesmo servido nessa cena, o que a princípio teria que ser. Além disso, coitado do Valetim (ator que faz o rapaz na estória), pois, além de esperar horas para fazer as suas únicas duas cenas do dia, teve que comer comida fria, pois o pessoal da produção esqueceu de esquentá-la para o menino. Na hora, com todo mundo gritando: “a chuva acabou”, “o Lucas tem que viajar”, “não vai dar tempo..”, nem tive tempo de prestar a atenção se a comida estava fria ou quente. Ai vai o meu pedido de desculpas para o Valetim. Da direita para a esquerda: Lucas Paio, Gustavo Marquezini, Paulo Henrique, Lucas Valetim e Douglas.
Bom, chegando à rua da casa do sr. Renato, quando terminamos de montar o equipamento, lá pelas 8:45h, iniciou-se um desespero geral, pois nada ainda estava pronto para filmar, começou a chover novamente e a vizinha, sra. Magali, se recusou a emprestar sua residência para filmarmos. E ela desistiu bem na hora de filmar. Havíamos conversado com ela pela manhã, no sábado mesmo, e ela disse que estava tudo ok. Bom, essas coisas acontecem. E o erro foi nosso de não ter pedido para ela assinar o termo de cessão de locação. Agora não tínhamos mais uma casa vizinha, e sem a casa vizinha não havia como filmar, e pior, tínhamos que arrumar a casa antes da chuva que já começava a engrossar e tudo isso em 15 minutos, pois era o tempo em que teríamos o Lucas conosco. Acabou que, quando um rapaz saiu de uma casa próxima, os produtores correram até lá e lhe pediram para usá-la, no ato, sem aviso prévio. Como ele só podia esperar por 15 minutos e nós também para filmar, foi caixa. Agora era só posicionar a câmera e terminar a iluminação.
Aqui tenho que colocar duas coisas importantes. A primeira é que há uma cena anterior, que havíamos gravado à tarde, em que o Gustavo Marquezini (o Hélio na estória) se dirige à casa da vizinha. Isso quando o filme estiver montado pode ficar sem sentido, porque ele se dirige à casa da Magali e não a nova casa. Mas, na hora, nem tive tempo de pensar nisso. Outra coisa foi com relação à iluminação. Como precisávamos montar o equipamento de luz e não tínhamos bateria para tal, tivemos que pedir ao sr. Renato um pouco da energia elétrica de sua casa.
Ainda não tínhamos terminado quando o tempo se esgotou. Não havíamos ensaiado o suficiente, e nem tinha ainda acertado o melhor lugar para a câmera quando todo mundo começou a me pressionar para rodar a cena. Foi ai que arredei a câmera 15 cm para trás, sem chamar o diretor de fotografia para medir o foco, e gritei que iríamos rodar. Rodamos uma que não tinha ficado nem de longe boa, pois muita coisa havia mudado e não tive tempo de passar as orientações necessárias para os atores. Como todo mundo sentiu que não havia ficado boa, houve uma cobrança para rodarmos uma segunda tomada. O que não estava nos planos e que eu aceitei arrependido, pois em minha opinião, não mudou nada do segundo. E ainda por cima corre o risco da cena ter ficado sem foco. De qualquer forma, depois da pressão e do desespero que foi, ter conseguido rodar a cena com o Lucas foi uma vitória. Passamos do horário previsto 15 minutos e a Mayara tinha 45 minutos para levar a irmã até a rodoviária.
Como todo o aparato estava armado e tínhamos apenas 1 cena para terminarmos na casa do sr. Renato, resolvemos filmá-la naquele exato momento e finalizar todas as cenas noturnas previstas no roteiro. Só havia um detalhe, era preciso ter um carro, o que nós não tínhamos. Eis que um Opala pára umas duas ruas abaixo e vejo a produção sair correndo atrás do motorista para ele não só emprestar o carro como atuar no filme. E como, pela posição da câmera, não iria aparecer o motorista, aquilo caiu como uma luva. Até que o filho do sr. Renato apareceu gritando e perguntando quem iria pagar a conta de energia de sua casa. Apesar do susto que tomamos com a cena, dissemos que quando terminássemos iríamos deixar um dinheiro e que isso não seria problema ou, de forma alguma, geraria uma briga. Ele entrou em casa ainda ríspido e foi recebido pela mãe, esposa do sr. Renato, e que aqui, por uma falta terrível, não me lembro de seu nome, aos xingos, dizendo que aquela não era a educação que ela havia lhe dado.
Com a chuva caindo em pingos fortes, com o sr. Renato nervoso com a cena do filho e com problemas de coração dizendo que precisava com urgência repousar-se, e com o cara do Opala exaltado pela demora em rodar a cena, gritei ação, sem elaborar muito a coisa, com câmera parada e uma luz básica simulando um poste. E não foi que na hora do Opala sair de cena, o motorista, com certeza nervoso com sua primeira aparição em um filme, não subiu com o carro no meio fio e quase o deixa morrer, numa cena em que teria que sair em velocidade para o meio da rua, numa situação de fuga. Mais nessa hora já estava esgotado demais para achar qualquer coisa e ter terminado essa cena foi o maior alívio do mundo.
Gustavo Marquezini e Lucas Valentim na última cena do sábado.
No final, o cara do Opala nem voltou para se despedir. Deve ter ficado com tanta vergonha de ter subido no meio fio que nem voltou. Depois, fomos conversar com sr. Renato e deixar o dinheiro para a energia, porém ele recusou com um pedido de desculpas pela encenação do filho, que de acordo com a esposa: “ele tinha tomado umas cervejinhas...”. Só que, na verdade, era a gente que tinha que pedir desculpas, que além de amolar durante a noite e roubar a energia, não os deixamos dormir. Em seguida, juntamos os equipamentos, guardamos tudo na casa do Karel e formos para um bar relaxar... Havia muito trabalho ainda no domingo.




