terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Post 1: Sobre biblioteconomia, cinema e ditadura militar


Sempre gostei muito de cinema. Tanto que minha adolescência não foi em boates ou bares, mas sim em locadoras e em cinemas. E olha que na minha adolescência não tinha tantos cinemas na cidade de Belo Horizonte como tem hoje em dia. Era um piralho de 13 e 14 anos quando fugia de casa para ir ao cine Brasil na praça Sete e ao Cine Royal na avenida dos Caetés, se não me engano. Gostava mais do Cine Royal, tanto pelo nome que achava o máximo:“Cine Royal”, tanto pelo ambiente pequeno e familiar. Quanto aos filmes, não me critiquem aqueles que conheciam o Cine Royal. Tinha 13 e 14 anos! E com 13 e 14 anos é impossível gostar de Godard.

Sempre gostei de cinema e confesso que sempre tive grande vontade de trabalhar com isso. Mas a minha condição financeira não me permitia nem ao menos sonhar com tal coisa. E foi assim que escolhi, sem nenhum arrependimento, cursar a faculdade de Biblioteconomia. Digo sem arrependimento, primeiramente, pelos grandes e verdadeiros amigos que fiz e que ainda tenho contato, contrariando todas as estatísticas, que sabe lá Deus de onde vem, dizem que depois da formatura os laços são perdidos. Amigos com quem compartilho muito minha caminhada e vice-versa, devido aos óbvios e corriqueiros imprevistos da vida. E por último, porque é a atividade de bibliotecário que me dá os recursos financeiros que me permitem, hoje, cursar cinema na Escola Livre de Cinema. E é aqui que eu quero chegar.

Depois de uma temporada punk, que se arrastou por um ano e meio de estudos árduos, consegui abandonar o meu antigo emprego de auxiliar de biblioteca, digno de um salário mínimo, para trabalhar como funcionário público, com um salário um pouco melhor. Estabilizado, poderia pensar e realmente precisava de uma atividade que trouxesse um pouco mais de alegria e lazer para minha pacata vida entre livros científicos e teorias inventadas. E por que não ser o cinema essa fuga da realidade, pensei! E foi aí que caí na Escola Livre de Cinema, perfeito para o que eu queria. O curso tem a duração de apenas um ano, ou seja, dois semestres e a promessa de realização de três curtas. Um no fim do primeiro semestre e dois durante o segundo.

Em agosto já estava matriculado e me adrentando no mundo imaginário do cinema. Quando me foi perguntado qual era minha pretensão, a resposta foi simples: “nenhuma”. Estou feliz com a minha profissão e não quero fazer do cinema uma obrigação, ou seja, lhe legar o dever de pagar as minhas contas. O cinema seria um hobby.

Assim, na disciplina de roteiro, nos foi passado pelo professor Cláudio Costa Val a tarefa de confecção de um roteiro de curta-metragem com até 11 páginas. Meu Deus, um roteiro! Ao mesmo tempo em que é algo desafiador e empolgante, é desesperador, pois nunca fiz algo parecido na vida. Só que isso nem de longe é o problema. O problema real e imediato é: o que escrever? Pensei em várias temáticas, mas nenhuma parecia se encaixar nas 11 laudas exigidas.

Foi nesse momento que me veio uma estória que pretendia transformar em dramaturgia há alguns anos atrás. A peça era muito simples, à princípio, pois seria um diálogo de dois homens que se passaria num quartinho dos fundos de uma casa. A história se trataria de dois amigos de infância que acabaram, pelas circunstâncias da vida, seguindo caminhos distintos. Um se casa e constitui família. O outro resolve, em plena ditadura militar, aderir à guerrilha e à luta armada em busca da democracia e de melhores condições sociais de vida aos compatriotas. E que, perseguido pelo regime, encontra na casa do amigo de infância o lugar perfeito para se esconder. A peça tinha a pretensão de resgatar a ingenuidade da infância pobre dos dois, as aventuras amorosas da adolescência, as poesias e as músicas da faculdade e a separação natural que a vida nos submete em detrimento de determinadas escolhas.

Dentro dessa idéia escrevi o roteiro. Como não teria tempo de debater infância, adolescência e faculdade em 11 laudas, resolvi inserir outros elementos que trouxessem a mesma idéia principal, e que me permitisse abrir e fechar a estória no espaço delimitado. O que obviamente, não consegui. Deu 15 laudas e não existe nada na estória que eu possa tirar sem atrapalhar a trama.

Para efeito de curiosidade, terminei o roteiro ontem. Gostei da estória. Mas que autor não gosta da própria estória que escreve não é mesmo? Pelo que sei, apresentaremos o roteiro para o professor que fará a orientação e depois que toda a turma apresentar o seu roteiro, iremos escolher um para filmar no final do ano.

Vamos ver no que vai dar.

3 comentários:

Ronaldo Silva disse...

Paulo, que lindo bicho! O cine royal seria como o Tamoios? Pena que esses cinemas viraram igrejas. E o Cine Brasil? A primeira vez que fui ao cinema, tardiamente aos 16 anos, fui ao Cine Brasil. Aquele roteiro sobre o bibliotecário tem que sair. E o documentário sobre o América também! E o melhor: por diversão, sem a obrigação de vender! Paz!

Paulo de Castro disse...

Tô correndo atrás do equipamento!

Anônimo disse...

e ai paulo e galera do elenco não tive tempo de agredecer a força e paciencia que tiveram comigo e dizer o quanto bacana foi trabalhar com vcs. desejo a todos sucessos... e com certeza, o filme vai ser sucesso. abraços a todos.