terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Post 8: Sobre duas cenas tranqüilíssimas e outros questionamentos...


Depois do almoço, fomos rodar a cena 11, externa, usando a fachada da casa do seu Renato. Assim que chegamos ao local, a rua estava cheia de carros estacionados dos dois lados. Ai começou uma verdadeira gincana para descobrir quem eram os donos dos carros e para pedir que, gentilmente, os retirassem. Era impossível fazer a cena de uma rua nos anos 70 com um Ford Focus estacionado na esquina. E não tinha outro jeito de fazer isso, senão batendo em todas as casas, explicando quem éramos, o que fazíamos e, no final das contas, pedindo. Além disso, rezávamos para ninguém ter estacionado o carro lá e ter ido a pé para outro lugar. No final, depois de muito procurar, conseguimos tirar todos os carros e limpar a rua. Como havíamos conseguido a autorização da prefeitura para fechá-la, afixamos os cones, estendemos as fitas e fomos montar o equipamento.

A segunda dificuldade foi o enquadramento. Queria uma cena mais elaborada, câmera na mão, para desespero do Pipo (câmera). Só que, para complicar, aparecia uma faixa da NET no quadro. Lá fomos eu e o Douglas (assistente de direção) tirar a faixa. Mas, fracassados, chamamos o Paulo Henrique (fotografia) para fazê-lo, pois nem havíamos conseguido subir na árvore. Depois de muito esforço do Paulo Henrique pra subir, de dois homens para suspendê-lo e um alicate cego para cortá-la, conseguimos remover a faixa.

Porém, quando olhei pelo viewfinder*, vi que realmente rodar a cena pegando o final da rua seria impossível, pois havia uma multidão de carros parados ao lado da faixa da prefeitura. Não sabia se eram curiosos ou se queriam esperar a gravação terminar para atravessarem. Resumindo, esse quadro não funcionaria. De novo tive que mudar o plano. E dessa vez, a posição que eu coloquei a câmera não me agradou, mas me resignei a achar que poderia ser pior, visto o nível de dificuldade que era encontrar uma rua que preservasse as características dos anos 70 e ainda por cima estar vazia.

Da direita para a esquerda: Lindomar e Leo.

A cena até que foi tranqüila. Fora a chuva que ameaçava despencar sobre nossas cabeças, deu tempo de rodá-la tranquilamente. E essa, sem nenhum erro. Acabou que, para aproveitarmos a luz, gravamos a próxima cena, a 12, na seqüência. Deste modo, desmontamos o equipamento e fomos rapidamente para a casa do Karel.

Gustavo Marquezini e seus machucados, um belíssimo trabalho da Janaína Salgado (maquiadora).

Lá chegando, pela primeira vez nesse filme, consegui colocar a câmera no lugar exato que tinha planejamento na pré-produção. Ai descobri que, quando você planeja uma coisa e vai pro set achando que tudo vai sair do jeito que você imaginou, tudo sai diferente. Ou seja, as coisas acontecerem do jeito que você imaginou é a coisa mais difícil que existe no mundo. E ai vem mais um desespero meu. Quando assisto a filmes, a coisa que mais gosto é ficar avaliando os quadros, tipo: “esse quadro está ruim”, “esse deveria ser mais fechando”, “esse mais aberto”, e por aí vai. E quando imaginei o filme, pensei muito nisso, já que pela limitação de negativo eu não poderia experimentar. Tinha que rodar cada cena em plano único, sendo que em muitas cenas há movimentação dos atores.

Mesmo assim, com todas as limitações, tentei compor cada quadro o mais coerente com a estória possível. Mesmo assim é um risco, pois a cena poderia exigir mais do que havia sido concebido. Mesmo eu sendo o autor do roteiro, isso não me exime da responsabilidade como diretor. E como diretor eu me sobressaio com a composição dos planos. Imagina todo mundo elogiando a fotografia, a maquiagem, a continuidade, o figurino, a direção de arte, etc, mas metendo o pau nos enquadramentos e no som.

Agora, sabíamos que não adiantava ficar colocando a culpa nas limitações técnicas. Tínhamos que contar com a criatividade e muito trabalho para tentar burlar, pelo menos um pouco, todas essas deficiências. Por exemplo, mesmo com o barulho da câmera, que era infernal, o Lucas (técnico de som) aproveitava os ensaios, em total silêncio por parte da equipe (em teoria), para capitar o som. Fora que ele capitou muito som para cobertura, tipo: passos, sons do ambiente, essas coisas, que ajudam demais na pós-produção.

Mesmo assim, tenho muito receio. E como rodamos em negativo, ver como ficou a cena, só depois de revelado e telecinado. E se você acha que o diretor tem tempo de pensar no quadro no dia das filmagens está redondamente enganado. É tanta confusão, tanta gente falando, luz abaixando, luz subindo, cronograma estourado e tal, que você fica louco para posicionar a câmera em qualquer lugar e terminar rápido a cena.

Mas tentei não me abater ao desespero e fiz o que pude para suprir o problema dos planos únicos. Se não tínhamos negativo para fazer os cortes necessários para a câmera acompanhar a ação, a câmera teria que se mover para acompanhá-la. E nessa o Pipo suou demais, coitado, com a câmera de 9 kilos na mão. Mas não tinha outro jeito. Outras cenas, em que era interessante esconder alguém em quadro, pois a cena exigia, ou mesmo para dar um suspense, colocamos a câmera no tripé e deixamos a cena rolar. Mesmo assim, raras foram as cenas com a câmera fixa, sem uma pan horizontal ou vertical para acompanhar a ação.



* Viewfinder é um visor que possui as mesmas lentes que podem ser usadas na câmera e que permite escolher qual lente usar para o quadro que deseja compor.

Um comentário:

Anônimo disse...

Doido demais fazer um filme! Vários detalhes que eu não conhecia!