quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Post 7: Sobre primeira cena, planos e erros


Decidi filmar em 16 mm. E nisso tenho que agradecer a Barbara e a Mayara pelo incentivo. Principalmente à Barbara, que deu a maior força e fez todos aqueles problemas descritos no post 3 parecerem insignificantes demais frente ao nosso entusiasmo e vontade de fazer o melhor.

Chegamos, Mayara e eu, no bar, quase na hora exata marcada. Somente o Gustavo Martins (dono do bar) e o Douglas (assistente de direção) já estavam lá. Aos poucos a equipe foi chegando e quem se perdia no caminho ligava desesperado, sem saber onde estava, como saía de lá e onde tinha que ir. Nesse momento, se você visse alguém conversando ao celular, com certeza, estava tentando ensinar o caminho do bar para alguém.

De cara, assim que chegamos à porta do bar, vi que realmente o sonho desse filme ter som direto era quase impossível. Simplesmente, todos os ônibus de Belo Horizonte deviam passar por aquela bendita rua. Foi nessa hora que vi o fantasma da dublagem se materializando na minha frente. Para se ter uma idéia da gravidade da poluição sonora do lugar, quando passava um ônibus, e isso acontecia a cada 30 segundos, a gente só conseguia ver a boca da pessoa se movendo, o som da voz desaparecia.

Alguns minutos depois, o Cláudio (professor da Escola) chegou e começamos a montar o equipamento. Quando fui posicionar a câmera para definir qual seria o enquadramento, já surgiu o segundo problema do dia. O balcão era muito diferente do balcão do bar do seu Orlando e não seria possível eu usar o mesmo plano. Ouvindo um, ouvindo outro, eu e o Pipo (câmera) posicionamos a câmera próximo do que eu tinha imaginado e que o bar permitia. Na verdade, havia uns objetos em cima do balcão que eu queria tirar para limpar mais o quadro e dar mais espaço para os atores, porém a direção de arte me proibiu, pois eram objetos fidedignos da década narrada. Me balizei a posicionar a câmera, gritar silêncio e pedir ao atores para passarem a cena algumas vezes antes de rodar pra valer, em sintonia com o refrão do dia: “não pode errar, hein!”.

Da esquerda para a direita: Lindomar e Gustavo Martins.

Quando a fotografia terminou de iluminar, perguntei ao Paulo Henrique (diretor de fotografia) se o fundo do bar não estava amarelo demais e ele restringiu-se a me responder em meio a um sorriso de satisfação: “é uma decisão estética”. Bom, se ele estava pensando em um filme amarelo, a lá Van Gogh, não vou discordar, mas pensando agora cá com meus botões, não sei por qual razão não lhe perguntei o porquê do amarelo. Mas enfim, como a iluminação estava pronta e muito bonita, era hora rodar.

Fazendo o balanço do espaço de tempo entre o meu primeiro: “ação” e “corta” pra valer, só cometemos 2 erros. Alguém ainda tentou me consolar dizendo que era um bom número para uma primeira vez. Mesmo assim, não conseguia me tranqüilizar. O primeiro erro foi que no momento da gravação, não houve capitação de som direto. O Cláudio, que estava fazendo o som no lugar do Lucas (técnico do som) não ouviu que aquela tomada seria a valendo. O segundo erro foi que a claquete estava marcando cena 1, mas nós havíamos filmado a cena 13. Enfim, depois eu ponderei e vi que os erros não haviam sido tão graves, visto que a claquete não iria aparecer no filme e como só tem uma tomada na película, não tinha como a gente se confundir na edição. Com relação ao som, foi até bom, pois como eu já sabia que o filme seria dublado desde o começo, mas não queria acreditar, deu para, pelo menos, cair na real.

Cadê o ator? Vi alguém gritando. É mesmo, o Gustavo Marquezini, que faria a segunda e última cena no bar, não havia chegando ainda. Ele estava fazendo uma peça em Betim. Bom, pedi a Barbara para ligar para ele e falei pro Paulo Henrique começar a montar a iluminação. Ai surgiu o mesmo problema da primeira cena, com uma pequena diferença. O bar não permitia, de forma alguma, fazer o plano que eu tinha imaginado. Se na primeira cena deu pra fazer um parecido, para essa cena era impossível. Foi aí que o Douglas sugeriu um plano bacana, com um movimento de câmera audacioso para quem não tinha um travelling dms ou uma steadicam. “Mas vamos fazer isso com a câmera na mão?” indaguei assustado. Como o Paulo Henrique queria uma cena mais elaborada, pois seria essa a primeira cena do filme e o Pipo passou firmeza e confiança, topei. Ensaiamos com a câmera umas 6 ou 7 vezes antes de rodar. Só para se ter uma idéia da dificuldade, o Pipo teria que dar uns 3 ou 4 passos pequenos para trás, andando de costas, segurando uma câmera de 9 quilos que não tinha como colocar no ombro, por causa do design.

Da esquerda para a direita: Cláudio, eu, Pipo, Osvaldo e o Serginho.

Havia uma distância de 2 metros de onde a câmera sairia até onde se posicionaria para acompanhar a cena. Nesse intervalo, teríamos que alterar o foco da câmera em 2 pontos. Uma vez no meio do percurso e outra quando a câmera parasse para apenas acompanhar a ação. Aí combinamos que, eu ligaria e desligaria a câmera e o Osvaldo (assistente de câmera) mudaria o foco. Ou seja, três pessoas por conta da câmera para conseguir o efeito que a gente queria. Quando terminamos o último ensaio com a câmera, o Paulo Henrique havia finalizado a iluminação.

Ao meio dia, horário que, de acordo com o cronograma de filmagens, deveríamos estar saindo do bar, o Gustavo Marquezini chegou. Depois que se vestiu, pedi que ele passasse seu texto pelo menos umas três vezes antes de rodar. Depois que senti que estava tudo certo, filmamos a segunda cena do filme. Tudo saiu mais certo dessa vez. Apenas o Gustavo errou uma fala, mas que ele conseguiu corrigir logo em seguida. Fiquei um pouco cismado, mas depois o Lucas me disse que era até interessante, pois soaria natural.

Da esquerda para a direita: Lindomar, Gustavo Martins e Gustavo Marquezini.

O balanço final das duas cenas no bar foi bom ao meu entender, cometemos só três erros pequenos e nos divertimos com a platéia que se juntou na porta do bar achando que iria ver algum ator global em cena. Agora era hora de juntar o equipamento e subir para Santa Tereza.

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