terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Post 6: Sobre como tudo pode dar errado na véspera das filmagens


Na quarta-feira, dia 10, já na semana das filmagens, sentamos todos da equipe para acertamos alguns pontos da produção. Inclusive, a Barbara (produtora) nem compareceu a reunião para ensaiar com os atores. Como a produtora não estava e quase tudo da produção, até aquele momento, estava acertado, decidimos fechar o cronograma de filmagens. É nessas horas que você percebe claramente que a democracia é o caos. Todo mundo tem opinião pra tudo, defende sua idéia com unhas e dentes, não abre mão de nada e tenta se valer pela altura da voz. Depois de 2 horas de discussão, fechamos o cronograma de apenas 13 cenas. Imagina um longa? Combinamos de encontrar no sábado, dia 13, às 8 horas da manhã, no bar do seu Orlando.

Ao fim da reunião, o Douglas, assistente de direção, disse que não sabia onde ficava o bar e que também não podia participar da última reunião de produção na sexta. Então decidimos ir até o bar para conhecer o caminho. Como já estávamos lá, aproveitamos para pedir ao seu Orlando a assinatura da cessão de direitos de uso da imagem de seu bar. E foi aí que tivemos a primeira desagradável surpresa da semana. Não é que o seu Orlando nos pediu 500,00 reais para ceder o bar para a gravação de 2 cenas. Tentamos explicar para ele que éramos alunos, que o filme era uma produção independente, que não contávamos com leis de incentivo, que por essa razão pedíamos apoio e que, em contrapartida, nós iríamos vincular o nome do seu estabelecimento comercial (agora era estabelecimento comercial e não mais bar do seu Orlando) no material gráfico e visual do filme, e que o mesmo seria exibido em festivais, na televisão, etc. Nada convenceu o homem, no mínimo ele achava que se tratava de uma mega-produção hollyoodiana, com milhões em orçamento e estávamos amarrando quinhentinhos...

Sem bar e sem plano B, fomos para casa derrotados. E minha preocupação era maior com o furo do bar, porque não tínhamos lugar para se encontrar no sábado. De qualquer forma, se não encontrássemos outro bar até o dia das filmagens, podíamos ir filmando outra coisa enquanto a produção corria atrás de um bar dos anos 70.

Na quinta-feira, durante o meu trabalho, fiz pouca coisa em meio à confusão de ligações, e-mails, eu correndo atrás de algumas coisas da produção, etc. E eu não podia me dar ao luxo de perder tanto tempo no trabalho, já que estava apertado com um projeto e com o cronograma já no limite do prazo. Resultado, aproveitei para avisar a todos que estaria na sexta-feira, manhã e tarde, incomunicável, com celular desligado, fixo fora do gancho e caixa de e-mail fechada.

E já que estou falando de quinta, logo à noite, quando íamos fazer o último ensaio com os atores, o Gustavo Marquezini (que irá fazer o papel do Hélio na estória) me pediu para chegar mais tarde no sábado, pois teria que participar de uma peça. E se ele faltasse nessa peça, eles iriam colocar outra pessoa no lugar e ele não participaria da Campanha de Popularização do Teatro de BH. Mas ele foi todo ético dizendo que havia combinado comigo de chegar às 8 horas da manhã e que se fosse preciso lá estaria. E realmente eu precisava dele lá 8 horas da manhã, pois ele tinha uma cena no bar. Só que, como não tinha mais bar e o cara iria perder a campanha se faltasse, não podia de forma alguma segurá-lo. Agora estava sem bar e sem ator.

Gustavo e Mayara em meio a discussão e a fuga.

Pode parecer exagero, uma vez que são apenas 13 cenas e um fim de semana inteiro parece tempo demais. Mas, definitivamente, não é, e é isso que me preocupa. Mas é melhor eu deixar isso de lado, visto que há coisas mais preocupantes.

Na sexta-feira, então, depois de ficar incomunicável durante todo o dia, e ainda sem a certeza de um bar para filmarmos, eis que a Márcia, assistente de produção, me liga, poucos segundos depois de eu ter ligado o celular me dizendo que a casa havia melado e que o Karel, dono da casa, iria viajar. Pronto, agora sem bar e sem casa para as internas, o jeito era adiar o filme e fazer um churrasco com o dinheiro da revelação e da telecinagem.

O meu desespero não era maior porque o Paulo Henrique, diretor de fotografia, conseguiu a autorização da prefeitura para fecharmos as duas ruas das filmagens, as internas que não existiam mais e as externas. A Márcia até chegou a oferecer a casa dela, dizendo que era dos anos 70, e eu também, para a casa, tinha um plano B, a casa de dois grandes amigos. Mas, mesmo assim, era estrategicamente complicado. Primeiro, porque a casa do Karel ficava a uma quadra da casa onde faríamos as externas e isso era um facilitador sem precedentes, pois podíamos nos locomover com o equipamento na mão, e chegar à rua a pé. Isso seria muito importante, pois as cenas alternam entre dia e noite. Outro fator que pesa é que já havíamos definido posicionamento de câmera, iluminação e os atores já haviam ensaiado no local. E isso, se ocorrer em um lugar diferente, terá que ser refeito, e pior, na hora, na correria do momento, o que pode comprometer, ainda mais, a qualidade do filme.

Nisso os atores começaram a me ligar impacientes, querendo saber onde iríamos nos encontrar, pois já era sexta-feira à noite. Eu, sem saber direito onde, pois não havia mais bar e nem casa, não tinha idéia do que lhes dizer. Só faltava o pessoal da externa também melar dizendo que não topava mais. Bom, perguntei a Márcia se ela iria à reunião de produção e combinei de acertamos as coisa lá.

Na reunião, a Márcia explicou que na verdade o Karel iria viajar, mas havia deixado a chave da casa com ela e que nós poderíamos usá-la à vontade. Era ela que estava cismada com a responsabilidade. Mas ai a coisa muda de figura. A Márcia ficou um pouco receosa no começo, mas depois topou filmar na casa. E pra melhorar a noite, ela, a Márcia, tinha conseguido um bar no bairro Santa Efigênia. No fim, tudo se resolveu, só precisei ficar até de madrugada mandando e-mails para os atores, pois nessa altura do campeonato, crédito no meu celular já havia virado lenda.

Depois de todo esse stress, o jeito é dormir. E olha que as filmagens serão amanhã. Cara, seja o que Deus quiser.

Um comentário:

Anônimo disse...

Uau! Quanta tensão pré-filmagem!!! Não tinha idéia que algumas coisas haviam sido tão desesperadoras! Rs...