Roteiro escolhido era hora de determinar qual seria a equipe. Nisso começou uma guerra declarada pela vaga de assistente de direção. Depois que todo mundo escolheu sua função no filme: a) produtor; b) diretor; c) roteirista; d) assist. de produção; e) assist. de direção; f) diretor de fotografia; g) assist. de fotografia; h) som; i) figurino; j) direção de arte; k) maquiador; l) continuista; m) still; n) operador de câmera; o) assist. de câmera; e p) montador, era hora de colocar a mão na massa.
A primeira tarefa era estudar bem o roteiro. E foi isso que fizemos. Chegamos à Escola de Cinema por volta das 19h, sentamos na cantina, pedidos uma skol e começamos a trabalhar. Depois de umas 10 latinhas, o roteiro que tinha 18 cenas passou a ter 13. Isso seria bom se tivéssemos diminuído o número de páginas, o que não aconteceu. Mesmo com a economia de 5 cenas, o roteiro tinha perdido apenas 1 folha e agora tinha 14 laudas. Problemático. Isso porque, na verdade, nenhuma cena foi cortada, e sim, agrupadas a outras cenas.
Problemático, pois nós aprendemos a escrever o roteiro com a formatação Master Scenes, padrão americano que dá uma idéia do tamanho do filme, pois cada página nessa formatação corresponde, em média, a 1 minuto de filme. Então meu primeiro problema é encaixar 14 minutos de estória em uma lata de 11 minutos de filme. Mas esse não é o único problema.
A câmera em 16 mm que a Escola possui é muito antiga e faz muito barulho. Mas faz muito barulho mesmo. E isso acarreta a impossibilidade de captar som direto, ou seja, o filme terá que ser dublado. Agora tenho dois problemas. O primeiro é o tempo e o segundo é o som. No entanto, o que me preocupa mais é o som. Puxa vida, filme nacional dublado foi, é e sempre será sinônimo de tosquera. E olha que esses são meus dois maiores problemas, mas não os únicos.
Como o filme será ambientado nos anos 1970, conseguir figurino fica mais difícil. Outra coisa, há 4 cenas externas na rua. Ou seja, vamos ter que fechar a rua, pois se passar um carro moderno, já era. Outro problema, o roteiro prevê 3 carros, ou seja, precisamos de 3 carros durante a ação e 3 da década de 1970. Isso até que não é difícil, podemos usar um fusca, por exemplo. Só que há um pequeno detalhe. As placas dos carros nessa década tinham apenas duas letras e eram de cor diferente. Concluindo: vamos ter que tampar a placa do carro. Além desses problemas temos que arrumar um bar e uma casa que sejam também da época. Vai ser uma trabalheira sem fim.
Com relação à película, ainda estou morrendo de dúvidas se vou usá-la ou se vou rodar em digital. As vantagens de rodar em digital são a possibilidade de fazer som direto, a liberdade do ator de errar, a liberdade que vou ter de experimentar planos, fazer um plano e contra-plano, etc. Só que o digital não possui a textura e nem a profundidade da película. E isso faz toda a diferença quando você está sentado na cadeira do cinema. A qualidade de imagem é infinitamente superior. E porque eu não compro outra lata, você deve estar se perguntando. Eu não compro outra lata porque a cada 3 minutos e meio de filme em 16 mm revelado custa 150 reais. Com a telecinagem, ou seja, a digitalização do negativo para edição, 11 minutos de filme passa a custar 2.500,00 reais. Agora, a possibilidade rodar em 16 mm pode ser algo único, que eu não vou conseguir novamente, por causa da popularização do digital. E isso é uma coisa que me seduz. Agora, se eu resolver rodar em película, vou ter que tomar alguns cuidados.
O primeiro cuidado vai ser economizar negativo. Isso significa que todas as cenas terão que ser filmadas em plano único e com todos os atores em cena enquadrados. A lógica do plano e contra-plano aqui não vai funcionar. Vou explicar melhor. Geralmente, durante o diálogo de duas pessoas, primeiro você posiciona a câmera enquadrando um de frente e o outro bem no canto e pelas costas. Isso é o que chamamos de plano. Quando o diretor grita ação, todo o texto do diálogo é encenado pelos atores. Depois se coloca a câmera sobre o ombro do outro ator, fazendo o contra-plano e novamente o diálogo inteiro é passado. Nisso, um diálogo de 1 minuto custa 2 minutos de negativo. Se eu for usar plano e contra-plano em todas as cenas do filme, ele terá apenas 6 minutos dos 14 previstos no roteiro.
Assim, todas as cenas serão em plano único, ou melhor, em plano seqüência. A idéia aqui é poupar negativo, ou melhor, fazer dos 11 minutos de película, 11 minutos de filme. Vai ser um desafio, confesso, principalmente porque ninguém vai poder errar. E isso é o que mais me preocupa. Nem atores, nem equipe, ninguém vai poder errar nada. Fora a questão da dublagem.
Meu Deus do céu, o que eu faço? Bom, como ainda tem tempo, vou pensando com calma nessas coisas.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Post 3: Sobre tempo de cena, película e tomada de decisão
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2 comentários:
Escassez de recursos, impossibilidade de erros, imposição de dublagem... são as mazelas do cinema nacional, e que todo cineasta já deve ter enfrentado um dia... vc não achou que estaria livre disso no seu primeiro filme, achou? Bom, que dê tudo certo!!!
Bjs!
Não só não consegui escapar, como eles estão fazendo de tudo pra me engolir...
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