terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Post 8: Sobre duas cenas tranqüilíssimas e outros questionamentos...


Depois do almoço, fomos rodar a cena 11, externa, usando a fachada da casa do seu Renato. Assim que chegamos ao local, a rua estava cheia de carros estacionados dos dois lados. Ai começou uma verdadeira gincana para descobrir quem eram os donos dos carros e para pedir que, gentilmente, os retirassem. Era impossível fazer a cena de uma rua nos anos 70 com um Ford Focus estacionado na esquina. E não tinha outro jeito de fazer isso, senão batendo em todas as casas, explicando quem éramos, o que fazíamos e, no final das contas, pedindo. Além disso, rezávamos para ninguém ter estacionado o carro lá e ter ido a pé para outro lugar. No final, depois de muito procurar, conseguimos tirar todos os carros e limpar a rua. Como havíamos conseguido a autorização da prefeitura para fechá-la, afixamos os cones, estendemos as fitas e fomos montar o equipamento.

A segunda dificuldade foi o enquadramento. Queria uma cena mais elaborada, câmera na mão, para desespero do Pipo (câmera). Só que, para complicar, aparecia uma faixa da NET no quadro. Lá fomos eu e o Douglas (assistente de direção) tirar a faixa. Mas, fracassados, chamamos o Paulo Henrique (fotografia) para fazê-lo, pois nem havíamos conseguido subir na árvore. Depois de muito esforço do Paulo Henrique pra subir, de dois homens para suspendê-lo e um alicate cego para cortá-la, conseguimos remover a faixa.

Porém, quando olhei pelo viewfinder*, vi que realmente rodar a cena pegando o final da rua seria impossível, pois havia uma multidão de carros parados ao lado da faixa da prefeitura. Não sabia se eram curiosos ou se queriam esperar a gravação terminar para atravessarem. Resumindo, esse quadro não funcionaria. De novo tive que mudar o plano. E dessa vez, a posição que eu coloquei a câmera não me agradou, mas me resignei a achar que poderia ser pior, visto o nível de dificuldade que era encontrar uma rua que preservasse as características dos anos 70 e ainda por cima estar vazia.

Da direita para a esquerda: Lindomar e Leo.

A cena até que foi tranqüila. Fora a chuva que ameaçava despencar sobre nossas cabeças, deu tempo de rodá-la tranquilamente. E essa, sem nenhum erro. Acabou que, para aproveitarmos a luz, gravamos a próxima cena, a 12, na seqüência. Deste modo, desmontamos o equipamento e fomos rapidamente para a casa do Karel.

Gustavo Marquezini e seus machucados, um belíssimo trabalho da Janaína Salgado (maquiadora).

Lá chegando, pela primeira vez nesse filme, consegui colocar a câmera no lugar exato que tinha planejamento na pré-produção. Ai descobri que, quando você planeja uma coisa e vai pro set achando que tudo vai sair do jeito que você imaginou, tudo sai diferente. Ou seja, as coisas acontecerem do jeito que você imaginou é a coisa mais difícil que existe no mundo. E ai vem mais um desespero meu. Quando assisto a filmes, a coisa que mais gosto é ficar avaliando os quadros, tipo: “esse quadro está ruim”, “esse deveria ser mais fechando”, “esse mais aberto”, e por aí vai. E quando imaginei o filme, pensei muito nisso, já que pela limitação de negativo eu não poderia experimentar. Tinha que rodar cada cena em plano único, sendo que em muitas cenas há movimentação dos atores.

Mesmo assim, com todas as limitações, tentei compor cada quadro o mais coerente com a estória possível. Mesmo assim é um risco, pois a cena poderia exigir mais do que havia sido concebido. Mesmo eu sendo o autor do roteiro, isso não me exime da responsabilidade como diretor. E como diretor eu me sobressaio com a composição dos planos. Imagina todo mundo elogiando a fotografia, a maquiagem, a continuidade, o figurino, a direção de arte, etc, mas metendo o pau nos enquadramentos e no som.

Agora, sabíamos que não adiantava ficar colocando a culpa nas limitações técnicas. Tínhamos que contar com a criatividade e muito trabalho para tentar burlar, pelo menos um pouco, todas essas deficiências. Por exemplo, mesmo com o barulho da câmera, que era infernal, o Lucas (técnico de som) aproveitava os ensaios, em total silêncio por parte da equipe (em teoria), para capitar o som. Fora que ele capitou muito som para cobertura, tipo: passos, sons do ambiente, essas coisas, que ajudam demais na pós-produção.

Mesmo assim, tenho muito receio. E como rodamos em negativo, ver como ficou a cena, só depois de revelado e telecinado. E se você acha que o diretor tem tempo de pensar no quadro no dia das filmagens está redondamente enganado. É tanta confusão, tanta gente falando, luz abaixando, luz subindo, cronograma estourado e tal, que você fica louco para posicionar a câmera em qualquer lugar e terminar rápido a cena.

Mas tentei não me abater ao desespero e fiz o que pude para suprir o problema dos planos únicos. Se não tínhamos negativo para fazer os cortes necessários para a câmera acompanhar a ação, a câmera teria que se mover para acompanhá-la. E nessa o Pipo suou demais, coitado, com a câmera de 9 kilos na mão. Mas não tinha outro jeito. Outras cenas, em que era interessante esconder alguém em quadro, pois a cena exigia, ou mesmo para dar um suspense, colocamos a câmera no tripé e deixamos a cena rolar. Mesmo assim, raras foram as cenas com a câmera fixa, sem uma pan horizontal ou vertical para acompanhar a ação.



* Viewfinder é um visor que possui as mesmas lentes que podem ser usadas na câmera e que permite escolher qual lente usar para o quadro que deseja compor.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Post 7: Sobre primeira cena, planos e erros


Decidi filmar em 16 mm. E nisso tenho que agradecer a Barbara e a Mayara pelo incentivo. Principalmente à Barbara, que deu a maior força e fez todos aqueles problemas descritos no post 3 parecerem insignificantes demais frente ao nosso entusiasmo e vontade de fazer o melhor.

Chegamos, Mayara e eu, no bar, quase na hora exata marcada. Somente o Gustavo Martins (dono do bar) e o Douglas (assistente de direção) já estavam lá. Aos poucos a equipe foi chegando e quem se perdia no caminho ligava desesperado, sem saber onde estava, como saía de lá e onde tinha que ir. Nesse momento, se você visse alguém conversando ao celular, com certeza, estava tentando ensinar o caminho do bar para alguém.

De cara, assim que chegamos à porta do bar, vi que realmente o sonho desse filme ter som direto era quase impossível. Simplesmente, todos os ônibus de Belo Horizonte deviam passar por aquela bendita rua. Foi nessa hora que vi o fantasma da dublagem se materializando na minha frente. Para se ter uma idéia da gravidade da poluição sonora do lugar, quando passava um ônibus, e isso acontecia a cada 30 segundos, a gente só conseguia ver a boca da pessoa se movendo, o som da voz desaparecia.

Alguns minutos depois, o Cláudio (professor da Escola) chegou e começamos a montar o equipamento. Quando fui posicionar a câmera para definir qual seria o enquadramento, já surgiu o segundo problema do dia. O balcão era muito diferente do balcão do bar do seu Orlando e não seria possível eu usar o mesmo plano. Ouvindo um, ouvindo outro, eu e o Pipo (câmera) posicionamos a câmera próximo do que eu tinha imaginado e que o bar permitia. Na verdade, havia uns objetos em cima do balcão que eu queria tirar para limpar mais o quadro e dar mais espaço para os atores, porém a direção de arte me proibiu, pois eram objetos fidedignos da década narrada. Me balizei a posicionar a câmera, gritar silêncio e pedir ao atores para passarem a cena algumas vezes antes de rodar pra valer, em sintonia com o refrão do dia: “não pode errar, hein!”.

Da esquerda para a direita: Lindomar e Gustavo Martins.

Quando a fotografia terminou de iluminar, perguntei ao Paulo Henrique (diretor de fotografia) se o fundo do bar não estava amarelo demais e ele restringiu-se a me responder em meio a um sorriso de satisfação: “é uma decisão estética”. Bom, se ele estava pensando em um filme amarelo, a lá Van Gogh, não vou discordar, mas pensando agora cá com meus botões, não sei por qual razão não lhe perguntei o porquê do amarelo. Mas enfim, como a iluminação estava pronta e muito bonita, era hora rodar.

Fazendo o balanço do espaço de tempo entre o meu primeiro: “ação” e “corta” pra valer, só cometemos 2 erros. Alguém ainda tentou me consolar dizendo que era um bom número para uma primeira vez. Mesmo assim, não conseguia me tranqüilizar. O primeiro erro foi que no momento da gravação, não houve capitação de som direto. O Cláudio, que estava fazendo o som no lugar do Lucas (técnico do som) não ouviu que aquela tomada seria a valendo. O segundo erro foi que a claquete estava marcando cena 1, mas nós havíamos filmado a cena 13. Enfim, depois eu ponderei e vi que os erros não haviam sido tão graves, visto que a claquete não iria aparecer no filme e como só tem uma tomada na película, não tinha como a gente se confundir na edição. Com relação ao som, foi até bom, pois como eu já sabia que o filme seria dublado desde o começo, mas não queria acreditar, deu para, pelo menos, cair na real.

Cadê o ator? Vi alguém gritando. É mesmo, o Gustavo Marquezini, que faria a segunda e última cena no bar, não havia chegando ainda. Ele estava fazendo uma peça em Betim. Bom, pedi a Barbara para ligar para ele e falei pro Paulo Henrique começar a montar a iluminação. Ai surgiu o mesmo problema da primeira cena, com uma pequena diferença. O bar não permitia, de forma alguma, fazer o plano que eu tinha imaginado. Se na primeira cena deu pra fazer um parecido, para essa cena era impossível. Foi aí que o Douglas sugeriu um plano bacana, com um movimento de câmera audacioso para quem não tinha um travelling dms ou uma steadicam. “Mas vamos fazer isso com a câmera na mão?” indaguei assustado. Como o Paulo Henrique queria uma cena mais elaborada, pois seria essa a primeira cena do filme e o Pipo passou firmeza e confiança, topei. Ensaiamos com a câmera umas 6 ou 7 vezes antes de rodar. Só para se ter uma idéia da dificuldade, o Pipo teria que dar uns 3 ou 4 passos pequenos para trás, andando de costas, segurando uma câmera de 9 quilos que não tinha como colocar no ombro, por causa do design.

Da esquerda para a direita: Cláudio, eu, Pipo, Osvaldo e o Serginho.

Havia uma distância de 2 metros de onde a câmera sairia até onde se posicionaria para acompanhar a cena. Nesse intervalo, teríamos que alterar o foco da câmera em 2 pontos. Uma vez no meio do percurso e outra quando a câmera parasse para apenas acompanhar a ação. Aí combinamos que, eu ligaria e desligaria a câmera e o Osvaldo (assistente de câmera) mudaria o foco. Ou seja, três pessoas por conta da câmera para conseguir o efeito que a gente queria. Quando terminamos o último ensaio com a câmera, o Paulo Henrique havia finalizado a iluminação.

Ao meio dia, horário que, de acordo com o cronograma de filmagens, deveríamos estar saindo do bar, o Gustavo Marquezini chegou. Depois que se vestiu, pedi que ele passasse seu texto pelo menos umas três vezes antes de rodar. Depois que senti que estava tudo certo, filmamos a segunda cena do filme. Tudo saiu mais certo dessa vez. Apenas o Gustavo errou uma fala, mas que ele conseguiu corrigir logo em seguida. Fiquei um pouco cismado, mas depois o Lucas me disse que era até interessante, pois soaria natural.

Da esquerda para a direita: Lindomar, Gustavo Martins e Gustavo Marquezini.

O balanço final das duas cenas no bar foi bom ao meu entender, cometemos só três erros pequenos e nos divertimos com a platéia que se juntou na porta do bar achando que iria ver algum ator global em cena. Agora era hora de juntar o equipamento e subir para Santa Tereza.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Post 6: Sobre como tudo pode dar errado na véspera das filmagens


Na quarta-feira, dia 10, já na semana das filmagens, sentamos todos da equipe para acertamos alguns pontos da produção. Inclusive, a Barbara (produtora) nem compareceu a reunião para ensaiar com os atores. Como a produtora não estava e quase tudo da produção, até aquele momento, estava acertado, decidimos fechar o cronograma de filmagens. É nessas horas que você percebe claramente que a democracia é o caos. Todo mundo tem opinião pra tudo, defende sua idéia com unhas e dentes, não abre mão de nada e tenta se valer pela altura da voz. Depois de 2 horas de discussão, fechamos o cronograma de apenas 13 cenas. Imagina um longa? Combinamos de encontrar no sábado, dia 13, às 8 horas da manhã, no bar do seu Orlando.

Ao fim da reunião, o Douglas, assistente de direção, disse que não sabia onde ficava o bar e que também não podia participar da última reunião de produção na sexta. Então decidimos ir até o bar para conhecer o caminho. Como já estávamos lá, aproveitamos para pedir ao seu Orlando a assinatura da cessão de direitos de uso da imagem de seu bar. E foi aí que tivemos a primeira desagradável surpresa da semana. Não é que o seu Orlando nos pediu 500,00 reais para ceder o bar para a gravação de 2 cenas. Tentamos explicar para ele que éramos alunos, que o filme era uma produção independente, que não contávamos com leis de incentivo, que por essa razão pedíamos apoio e que, em contrapartida, nós iríamos vincular o nome do seu estabelecimento comercial (agora era estabelecimento comercial e não mais bar do seu Orlando) no material gráfico e visual do filme, e que o mesmo seria exibido em festivais, na televisão, etc. Nada convenceu o homem, no mínimo ele achava que se tratava de uma mega-produção hollyoodiana, com milhões em orçamento e estávamos amarrando quinhentinhos...

Sem bar e sem plano B, fomos para casa derrotados. E minha preocupação era maior com o furo do bar, porque não tínhamos lugar para se encontrar no sábado. De qualquer forma, se não encontrássemos outro bar até o dia das filmagens, podíamos ir filmando outra coisa enquanto a produção corria atrás de um bar dos anos 70.

Na quinta-feira, durante o meu trabalho, fiz pouca coisa em meio à confusão de ligações, e-mails, eu correndo atrás de algumas coisas da produção, etc. E eu não podia me dar ao luxo de perder tanto tempo no trabalho, já que estava apertado com um projeto e com o cronograma já no limite do prazo. Resultado, aproveitei para avisar a todos que estaria na sexta-feira, manhã e tarde, incomunicável, com celular desligado, fixo fora do gancho e caixa de e-mail fechada.

E já que estou falando de quinta, logo à noite, quando íamos fazer o último ensaio com os atores, o Gustavo Marquezini (que irá fazer o papel do Hélio na estória) me pediu para chegar mais tarde no sábado, pois teria que participar de uma peça. E se ele faltasse nessa peça, eles iriam colocar outra pessoa no lugar e ele não participaria da Campanha de Popularização do Teatro de BH. Mas ele foi todo ético dizendo que havia combinado comigo de chegar às 8 horas da manhã e que se fosse preciso lá estaria. E realmente eu precisava dele lá 8 horas da manhã, pois ele tinha uma cena no bar. Só que, como não tinha mais bar e o cara iria perder a campanha se faltasse, não podia de forma alguma segurá-lo. Agora estava sem bar e sem ator.

Gustavo e Mayara em meio a discussão e a fuga.

Pode parecer exagero, uma vez que são apenas 13 cenas e um fim de semana inteiro parece tempo demais. Mas, definitivamente, não é, e é isso que me preocupa. Mas é melhor eu deixar isso de lado, visto que há coisas mais preocupantes.

Na sexta-feira, então, depois de ficar incomunicável durante todo o dia, e ainda sem a certeza de um bar para filmarmos, eis que a Márcia, assistente de produção, me liga, poucos segundos depois de eu ter ligado o celular me dizendo que a casa havia melado e que o Karel, dono da casa, iria viajar. Pronto, agora sem bar e sem casa para as internas, o jeito era adiar o filme e fazer um churrasco com o dinheiro da revelação e da telecinagem.

O meu desespero não era maior porque o Paulo Henrique, diretor de fotografia, conseguiu a autorização da prefeitura para fecharmos as duas ruas das filmagens, as internas que não existiam mais e as externas. A Márcia até chegou a oferecer a casa dela, dizendo que era dos anos 70, e eu também, para a casa, tinha um plano B, a casa de dois grandes amigos. Mas, mesmo assim, era estrategicamente complicado. Primeiro, porque a casa do Karel ficava a uma quadra da casa onde faríamos as externas e isso era um facilitador sem precedentes, pois podíamos nos locomover com o equipamento na mão, e chegar à rua a pé. Isso seria muito importante, pois as cenas alternam entre dia e noite. Outro fator que pesa é que já havíamos definido posicionamento de câmera, iluminação e os atores já haviam ensaiado no local. E isso, se ocorrer em um lugar diferente, terá que ser refeito, e pior, na hora, na correria do momento, o que pode comprometer, ainda mais, a qualidade do filme.

Nisso os atores começaram a me ligar impacientes, querendo saber onde iríamos nos encontrar, pois já era sexta-feira à noite. Eu, sem saber direito onde, pois não havia mais bar e nem casa, não tinha idéia do que lhes dizer. Só faltava o pessoal da externa também melar dizendo que não topava mais. Bom, perguntei a Márcia se ela iria à reunião de produção e combinei de acertamos as coisa lá.

Na reunião, a Márcia explicou que na verdade o Karel iria viajar, mas havia deixado a chave da casa com ela e que nós poderíamos usá-la à vontade. Era ela que estava cismada com a responsabilidade. Mas ai a coisa muda de figura. A Márcia ficou um pouco receosa no começo, mas depois topou filmar na casa. E pra melhorar a noite, ela, a Márcia, tinha conseguido um bar no bairro Santa Efigênia. No fim, tudo se resolveu, só precisei ficar até de madrugada mandando e-mails para os atores, pois nessa altura do campeonato, crédito no meu celular já havia virado lenda.

Depois de todo esse stress, o jeito é dormir. E olha que as filmagens serão amanhã. Cara, seja o que Deus quiser.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Post 5: Sobre ensaios, ensaios e ensaios


Todo mundo num filme é muito importante. E para que tudo dê certo, todo mundo tem que fazer muito bem a sua parte. Mas, sem dúvida nenhuma, boas interpretações fazem toda a diferença. E esse era outro desafio, conseguir bons atores, de graça, pois não tínhamos grana pra cachê e não tínhamos muito tempo para ensaiar.

Colocamos um anúncio e aos poucos alguns atores começaram a se interessar. Fechamos com 4 para realizarmos um teste no domingo, na casa da Barbara (produtora). Na verdade, nós precisávamos de 5 atores para o núcleo central do roteiro, ou melhor, 5 para os personagens que tinham fala. Os demais seriam figurantes ou não teriam fala. Acabou que fechamos com os 4 que apareceram no domingo e no meio da semana acertamos com o Gustavo Martins e fechamos a trupe principal.

Bom, aqui vai meu agradecimento aos atores. No domingo a galera não só leu o roteiro, fez o teste, como também topou passar todas as cenas para que eu pudesse filmar e editar depois em casa para saber exatamente o tamanho do filme. O velho problema de 14 laudas para 11 minutos de negativo. Digo que tenho que agradecer aos atores, pois ficamos de 9 horas da manhã até às 15 horas sem comer nada. Aqui vai um agradecimento também a minha namorada, que além de acompanhar os ensaios passando fome, me deixou ficar assistindo e editando os filmes até altas horas de domingo.

Ensaio, ensaio, ensaio. Esse era nosso lema. Tínhamos pouco tempo e cada segundo era valioso. Como a Mayara (a atriz que fará a Dadi) conseguiu com a UFMG um espaço na Escola de Belas Artes, era hora de colocar a mão na massa. E como a Barbara fazia teatro, fiquei tranqüilo, pois ela conduziria o elenco durante os ensaios. Só que coincidentemente, o horário que todos os atores tinham livre, inclusive eu, era exatamente o horário que ela fazia as benditas aulas de teatro. Meu Deus do céu, eu bibliotecário, teria que acompanhar os ensaios de atores que estudam teatro, sem entender patavinas do negócio. Bom, se você entra numa chuva é pra se molhar...

Já no primeiro ensaio detectamos que o Lindomar (o ator que fará o Raul na estória) estava tendo dificuldades para encarnar o personagem. Como eu também não conseguia passar exatamente o que eu queria, todos os demais atores: Gustavo (que fará o Hélio), Mayara, e o Valetim (o rapaz) fizeram vários comentários pertinentes e ajudaram demais para que o ensaio rendesse e até para que todos nós, inclusive eu, entendêssemos melhor a estória e entendêssemos melhor o personagem do Raul.

Mesmo assim, mesmo com todos os ensaios, não estava sentindo confiança no Lindomar. Não conseguia ver na atuação dele o Raul. Assim, decidi testar outro ator para o papel. Situação difícil a minha, pois o Lindomar estava se esforçando muito para fazer o personagem, estava comparecendo a todos os ensaios e sem cobrar nada, nem cachê, nem passagens, nem lanches, nada. Mesmo assim, tinha que pensar no resultado final do filme, e testar outro ator parecia a melhor solução no momento.

O outro ator foi o Leo. Ele fez bem o papel, mas tinha um pequeno grande problema. Não tinha tempo para ensaiar. Aí percebi o quanto era ambíguo e difícil o personagem do Raul. E percebi que um ator só conseguiria fazer bem o papel se realmente estudasse a fundo o personagem e ensaiasse muito, não só nos ensaios com todo o elenco, mas em casa, no trabalho, e onde quer que fosse. Ai, como o Lindomar tinha mais tempo, acabou melhorando bastante durante o processo e foi encontrando o personagem no seu tempo e isso foi muito bacana. Acompanhar esse desenvolvimento do personagem foi para mim um aprendizado e tanto.

Teve dias que os ensaios se concentraram apenas no Lindomar, e olha que o personagem do Raul tem apenas 4 cenas no filme. Mas são 4 cenas importantíssimas. Principalmente porque acho que o Raul é o grande personagem desse filme. Acertado o Lindomar, o Leo ficou com outro papel que ele aceitou com prazer.

A Mayara também foi importantíssima nos ensaios, principalmente no dia que ela perdeu uma peça que iria assistir para me dar uma mão com o Lindomar. Ela foi uma baita preparadora de elenco, até no último minuto, pouco antes das gravações. Além disso, ela prometeu emprestar o Lucas, seu sobrinho de 1 ano, para fazer o personagem do Juarez, seu filho no filme. E aproveito para pedir desculpas ao Gustavo Martins (dono do bar) que no primeiro dia que nos conhecemos, eu acabei o colocando num ensaio pesado, conduzido pela Mayara. E já que é para agradecer, devo um agradecimento especial ao Gustavo Marquezini que cedeu sua casa para um ensaio, e bem no dia da festa de aniversário de sua irmã. Pena não ter tido tempo para ficar mais tempo na festinha.

No feriado do dia 8 de dezembro, eu, a Barbara e o Pipo (câmera) levamos os atores para as locações e fizemos um ensaio de como seriam as cenas. Foi muito bom, pois deu para os atores e a equipe já se ambientarem. Como temos que gravar 13 cenas em apenas 2 dias, não podemos perder tempo no dia das filmagens. Tudo tem que estar preparado. Planejamento é a palavra de ordem.

Por último, fica só uma recordação importante. Durante o último ensaio na Escola de Belas Artes, estávamos passando uma das cenas mais tristes do filme. Isso porque eu filmei alguns ensaios para que os atores pudessem assistir e corrigir alguns detalhes de posicionamento, de gestos, etc. Nesse, especificamente, alguém numa sala ao lado, colocou uma música que encaixou como uma luva na cena e trouxe uma tristeza que ela, por si só, não poderia trazer. Foi algo tão inesperado e que acabou resultando numa cena tão linda, que mesmo sem cenário, figurino, etc. eu tenho dúvidas de que a cena do filme possa ficar tão bonita quanto essa gravada na minha câmera digital e que eu assisto, hoje, nostalgicamente...

domingo, 21 de dezembro de 2008

Post 4: Sobre produção, locação e Reencontro dos amigos de Santa Tereza


Depois de fechar o roteiro em 13 cenas era hora de começar a pré-produção. Marcamos de encontrar sábado, no bairro Santa Tereza, para procurar locações e tentar conseguir as refeições, os objetos de cena, etc. Como já havíamos fechado o dia das filmagens, 13 e 14 de dezembro, poderíamos já deixar tudo acertado se conseguíssemos alguma coisa. Vale lembrar que não temos 1 real pra investir no filme, e isso significa que temos que conseguir apoio pra tudo.

Antes do referido sábado, na véspera, sexta-feira, a Márcia, assistente de produção, já havia conseguido a casa para as cenas internas e um bar anos 70 para outras duas cenas. Resolvemos visitar as duas locações na sexta mesmo, à noite. Bom, quando chegamos no bar, o dono já desistiu de cara e nem quis saber de nada. Também, chegamos no lugar colocando a maior banca, dizendo “isso vai sair, isso aqui a gente passa pra lá, isso a gente coloca ali, isso aqui leva embora” e por aí vai. Mas até que foi uma boa o dono ter furado, pois tinha tanta goteira no bar que teríamos o maior trabalho para proteger o equipamento.

A casa foi super tranqüila. Na verdade, na casa funciona um estúdio de música chamado “DigiAudio”. E aqui vai meu agradecimento ao Karel, dono da casa e do estúdio, por nos ter cedido a locação com a maior boa vontade do mundo e o mais importante, de graça. Com a casa acertada, decidimos dar mais uma volta, já que o Pipo, o câmera, queira nos mostrar uma rua que seria ideal para uma cena do filme, visto que as casas eram antigas e a rua deserta. E realmente a rua era exatamente como eu tinha imaginado quando escrevi o roteiro. Como ainda não estávamos satisfeitos, fomos atrás de um bar. Eu sugeri o bar do Orlando, na praça do Cardoso, e lá fomos nós. Conversamos com o seu Orlando e ele topou. Tínhamos conseguido quase toda a locação. Só voltava agora duas casas para filmarmos as externas e um quartinho dos fundos, onde geralmente a gente guarda as coisas que não queremos mais usar, no entanto também não queremos jogar fora.

Marcamos no sábado, eu, a Barbara e o Paulo Henrique, meu chara e diretor de fotografia. Iríamos procurar o restante das locações e já acertar na casa do Karel posicionamento de câmera e iluminação, para ver se realmente dava para filmar ali. Como de fato constatamos que dava. Levamos uma câmera digital e inclusive filmamos alguns enquadramentos de como seriam as cenas, o que foi muito bom, já que depois mostramos os vídeos para os atores que já começaram a ensaiar sabendo exatamente como seria no dia das filmagens.

Bom, eu e a Barbara chegamos no horário, o Paulo Henrique chegou umas três horas depois. Enquanto esperávamos, visitamos duas vilas em Santa Tereza esperando usá-las para as externas, mas nenhuma agradou. Porém, sem querer, achamos um lote com uma casa enorme desabitada e sem telhado, e que no fundo tinha um quartinho perfeito para o filme. Perguntando um, perguntando outro, conseguimos o número do proprietário, que também nos cedeu o espaço com a maior boa vontade do mundo.

Quando o Paulo Henrique chegou, descemos para o bar do seu Orlando para ver enquadramento, luz, essas coisas. O bar tinha alguns problemas, mas dava pra filmar. Só que, quando chegamos na praça do Cardoso, estava acontecendo o 6º Reencontro de Gerações dos Amigos de Santa Tereza. Aproveitamos para almoçar um feijão tropeiro, tomar algumas cervejas geladas, comprar camisetas do encontro e tirar algumas fotos. Depois de abastecidos e uniformizados, formos para a casa do Karel.



Da esquerda para a direita: Paulo Henrique (diretor de fotografia), Barbara (produtora) e eu (diretor).


No fim da tarde, o Paulo Henrique tinha que ir embora, contudo Barbara e eu sentamos no bolão, pedimos mais cervejas e começamos a ler e reler o roteiro. Depois dessa cervejada o roteiro ganhou seu terceiro tratamento. Pois havia ganhado o segundo nas skols da cantina da Escola Livre.

Na segunda-feira seguinte ao sábado, depois do balanço geral do primeiro fim de semana de pré-produção, havíamos conseguido fechar todas as locações e fechar com dois restaurantes o almoço e a janta de sábado. Muito proveitoso. Fazer produção é muito cansativo, mas percebi que as pessoas têm uma boa vontade tremenda de ajudar. Eu, sinceramente, achei que seria mais difícil e que a gente gastaria mais tempo para conseguir tudo. Mas no final das contas, ouvimos mais sim do que não.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Post 3: Sobre tempo de cena, película e tomada de decisão


Roteiro escolhido era hora de determinar qual seria a equipe. Nisso começou uma guerra declarada pela vaga de assistente de direção. Depois que todo mundo escolheu sua função no filme: a) produtor; b) diretor; c) roteirista; d) assist. de produção; e) assist. de direção; f) diretor de fotografia; g) assist. de fotografia; h) som; i) figurino; j) direção de arte; k) maquiador; l) continuista; m) still; n) operador de câmera; o) assist. de câmera; e p) montador, era hora de colocar a mão na massa.

A primeira tarefa era estudar bem o roteiro. E foi isso que fizemos. Chegamos à Escola de Cinema por volta das 19h, sentamos na cantina, pedidos uma skol e começamos a trabalhar. Depois de umas 10 latinhas, o roteiro que tinha 18 cenas passou a ter 13. Isso seria bom se tivéssemos diminuído o número de páginas, o que não aconteceu. Mesmo com a economia de 5 cenas, o roteiro tinha perdido apenas 1 folha e agora tinha 14 laudas. Problemático. Isso porque, na verdade, nenhuma cena foi cortada, e sim, agrupadas a outras cenas.

Problemático, pois nós aprendemos a escrever o roteiro com a formatação Master Scenes, padrão americano que dá uma idéia do tamanho do filme, pois cada página nessa formatação corresponde, em média, a 1 minuto de filme. Então meu primeiro problema é encaixar 14 minutos de estória em uma lata de 11 minutos de filme. Mas esse não é o único problema.

A câmera em 16 mm que a Escola possui é muito antiga e faz muito barulho. Mas faz muito barulho mesmo. E isso acarreta a impossibilidade de captar som direto, ou seja, o filme terá que ser dublado. Agora tenho dois problemas. O primeiro é o tempo e o segundo é o som. No entanto, o que me preocupa mais é o som. Puxa vida, filme nacional dublado foi, é e sempre será sinônimo de tosquera. E olha que esses são meus dois maiores problemas, mas não os únicos.

Como o filme será ambientado nos anos 1970, conseguir figurino fica mais difícil. Outra coisa, há 4 cenas externas na rua. Ou seja, vamos ter que fechar a rua, pois se passar um carro moderno, já era. Outro problema, o roteiro prevê 3 carros, ou seja, precisamos de 3 carros durante a ação e 3 da década de 1970. Isso até que não é difícil, podemos usar um fusca, por exemplo. Só que há um pequeno detalhe. As placas dos carros nessa década tinham apenas duas letras e eram de cor diferente. Concluindo: vamos ter que tampar a placa do carro. Além desses problemas temos que arrumar um bar e uma casa que sejam também da época. Vai ser uma trabalheira sem fim.

Com relação à película, ainda estou morrendo de dúvidas se vou usá-la ou se vou rodar em digital. As vantagens de rodar em digital são a possibilidade de fazer som direto, a liberdade do ator de errar, a liberdade que vou ter de experimentar planos, fazer um plano e contra-plano, etc. Só que o digital não possui a textura e nem a profundidade da película. E isso faz toda a diferença quando você está sentado na cadeira do cinema. A qualidade de imagem é infinitamente superior. E porque eu não compro outra lata, você deve estar se perguntando. Eu não compro outra lata porque a cada 3 minutos e meio de filme em 16 mm revelado custa 150 reais. Com a telecinagem, ou seja, a digitalização do negativo para edição, 11 minutos de filme passa a custar 2.500,00 reais. Agora, a possibilidade rodar em 16 mm pode ser algo único, que eu não vou conseguir novamente, por causa da popularização do digital. E isso é uma coisa que me seduz. Agora, se eu resolver rodar em película, vou ter que tomar alguns cuidados.

O primeiro cuidado vai ser economizar negativo. Isso significa que todas as cenas terão que ser filmadas em plano único e com todos os atores em cena enquadrados. A lógica do plano e contra-plano aqui não vai funcionar. Vou explicar melhor. Geralmente, durante o diálogo de duas pessoas, primeiro você posiciona a câmera enquadrando um de frente e o outro bem no canto e pelas costas. Isso é o que chamamos de plano. Quando o diretor grita ação, todo o texto do diálogo é encenado pelos atores. Depois se coloca a câmera sobre o ombro do outro ator, fazendo o contra-plano e novamente o diálogo inteiro é passado. Nisso, um diálogo de 1 minuto custa 2 minutos de negativo. Se eu for usar plano e contra-plano em todas as cenas do filme, ele terá apenas 6 minutos dos 14 previstos no roteiro.

Assim, todas as cenas serão em plano único, ou melhor, em plano seqüência. A idéia aqui é poupar negativo, ou melhor, fazer dos 11 minutos de película, 11 minutos de filme. Vai ser um desafio, confesso, principalmente porque ninguém vai poder errar. E isso é o que mais me preocupa. Nem atores, nem equipe, ninguém vai poder errar nada. Fora a questão da dublagem.

Meu Deus do céu, o que eu faço? Bom, como ainda tem tempo, vou pensando com calma nessas coisas.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Post 2: Sobre roteiros, leituras dramáticas e censura


Agora é a hora de explicar o título do blog. Pois bem, “Aquele que está lá” é o título do roteiro que escrevi para a disciplina citada no post acima. Na verdade, toda a turma tinha que escrever um roteiro e a mesma turma decidiria qual roteiro iria ser filmado. Porém a disciplina de roteiro seguia a todo o vapor e nada do professor cobrar o roteiro da turma. O meu já havia sido escrito há muito tempo. E isso não era mérito meu. A maioria da turma já havia escrito o seu roteiro e só estávamos aguardando o chamado do professor.

E eis que no último dia da aula de roteiro, o Lucas (aluno da escola) cobra do Cláudio (Costa Val) a correção os roteiros. E eis que o professor Cláudio nos responde a questão com outra: “por que ninguém me entregou o roteiro? Já era para terem entregado”. Ora, não entregamos porque não sabíamos que era para ser entregue e porque ele não havia o exigido. Enfim, na outra semana entregamos os roteiros.

E nesse meio tempo começou a disciplina de direção com o mesmo professor. Nada obstante, durante essa, ele lia os roteiros e fazia pequenas sugestões, e nós, como bons alunos, as acatávamos. Perdão, nem todo mundo acatava as sugestões, mas isso é outra história. No entanto não havíamos decidido qual roteiro seria o escolhido para ser filmado. E começa mais uma novela. A disciplina de direção seguia a todo vapor, porém nada de escolher qual roteiro seria o filmado.

Com a demora você acaba relendo várias vezes o seu roteiro e inevitavelmente vai começando a achar que a coisa não era para ser assim, que a estória é ruim, que os diálogos são forçados, que nada empolga e por aí vai. Nesse sentido, comecei a bolar uma outra estória, que parecia mais viva, mais instigante e tal. Claro, seria tudo isso até ela entrar na geladeira e depois de várias leituras compulsivas, eu ter certeza de que nada daquilo era bom. Escrevi o outro roteiro, mas não o coloquei na roda.

Porém o Lucas, na semana seguinte, apresentou um segundo roteiro para o Cláudio. Aí pensei: “vou mostrar o meu também”. E foi o que fiz. Porém o meu segundo roteiro acabou sendo censurado. O Cláudio, categoricamente, disse que ele não podia ser filmado pela escola. A justificativa era que havia uma cena muito pesada, com um diálogo muito chulo, e que isso seria ruim para a imagem institucional da escola. Fazer o quê? Minha primeira experiência com os produtores executivos já não havia sido boa.

Com o meu segundo roteiro censurado, voltei a olhar para o “Aquele que está lá” com o olhar mais generoso e vazio de cobranças. Nesse meio tempo, já no fim da disciplina de direção, quando o Pipo (outro aluno da turma) também entregou seu segundo roteiro, o Cláudio viu que já era hora de definir qual seria o roteiro a ser filmado.

Como havia emprestado meus dois roteiros para outros alunos da turma cheguei no dia da escolha sem nenhum dos dois em mãos. Porém, antes de começar a aula, uma aluna do turno da manhã havia me dito que precisaria do roteiro, pois ele seria apresentado por meio de uma leitura dramática. Arrependido de não ter trazido uma outra cópia do roteiro, perguntei: o que é leitura dramática? Não consultei nenhuma fonte, portanto vou apenas transcrever o que foi me dito: leitura dramática é o ato de ler um roteiro buscando um início de representação, de dramatização. Nesse sentido, a didática era que o autor do roteiro iria ler a rubrica (parte do roteiro que descreve a ação, por exemplo, Pedro entra no carro.) e os demais da turma iriam ler o texto de um determinado personagem.

Para complicar minha situação, a Barbara, que tinha levado o roteiro do “Aquele que está lá”, o havia esquecido no carro de um amigo. Entretanto, para minha sorte, o Cláudio me permitiu imprimir uma cópia do roteiro na escola. Não vou entrar em detalhes a respeito da leitura dramática, pois acho que todos já devem imaginar a piada que foi. E deveras, foi divertidíssimo. Tanto que ultrapassamos o horário de aula certa de uma hora para dar conta de ler todos os roteiros. Como o tempo já havia expirado e muito, decidiu-se fazer a votação na próxima aula de direção, dentro de uma semana.

Chegado o dia, havia apenas uma regra. Nós não podíamos votar no próprio roteiro. O voto era secreto para evitar que manipulássemos o voto para o nosso roteiro ganhar. Depois de esperar a turma terminar de chegar, pois como qualquer turma, sempre há uma galera que chega atrasada, começamos a votação. Eu, o Lucas e o Pipo tivemos que escolher qual roteiro nós colocaríamos na roda, já que cada um havia escrito dois. Com relação a minha escolha, não era difícil imaginar que escolheria o “Aquele que está lá”. Nisso, 6 roteiros entraram na disputa: o da Barbara, o meu, o do Lucas, do Pipo, da Janaina e do Douglas. Outra coisa muito importante é que havia duas pessoas na turma que estavam presentes na votação, mas não tinham escrito roteiros.

Terminado a votação, começou a contagem dos votos. E para a incrível surpresa de todos, na abertura do penúltimo voto, todos os roteiros que estavam concorrendo ganharam 1 voto. Ou seja, haviam sido abertas 7 cédulas e cada uma dava o voto há um roteiro distinto. Digo 7, pois um voto foi em branco. E dá-lhe tumulto. Pois, de certa forma, quem vota em branco, numa situação dessas, favorece o próprio roteiro, ao passo que não dá um voto para o concorrente. Discussões à parte, na abertura da última cédula, grande apreensão. E eis que o meu roteiro ganha o segundo voto e vence a eleição. Para a minha grande alegria, e também surpresa, pois até então não sabia, eu ganhei o direito de dirigir o curta, direito esse dado ao dono do roteiro escolhido, se assim o desejar. E é lógico que eu aceitei o convite.

No final das contas, todos revelaram os seus votos. E nisso começou outra acusação. De que eu havia votado num roteiro sem chances de vitória para favorecer o meu roteiro. Isso porque o Cláudio havia dito que esse roteiro era impossível de ser rodado por considerá-lo muito longo, o que de fato era. Aí vai a minha defesa. Não havia roteiros sem chances de vitória, pois eu não sabia em qual as outras pessoas da turma iriam votar. Segundo, se o roteiro em que votei ganhasse, ele iria ser filmado. Com certeza, não seria rodado em película, mas seria filmado em digital. E terceiro, eu poderia votar em qualquer dos roteiros que estavam concorrendo, uma vez que, se estavam concorrendo, é porque tinham o direito de ser filmados. De certa forma esse roteiro foi alvo de censura, mais branda do que a do meu segundo roteiro, mas havia sido uma forma de censura. Nisso, reforço minha defesa dizendo que o meu voto foi um voto de protesto também. E quando votei nesse roteiro, como voto de protesto, foi no desejo de que ele fosse filmado sim.

Polêmicas à parte, fui feliz para casa, pois teria meu roteiro filmado e ainda seria o diretor.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Post 1: Sobre biblioteconomia, cinema e ditadura militar


Sempre gostei muito de cinema. Tanto que minha adolescência não foi em boates ou bares, mas sim em locadoras e em cinemas. E olha que na minha adolescência não tinha tantos cinemas na cidade de Belo Horizonte como tem hoje em dia. Era um piralho de 13 e 14 anos quando fugia de casa para ir ao cine Brasil na praça Sete e ao Cine Royal na avenida dos Caetés, se não me engano. Gostava mais do Cine Royal, tanto pelo nome que achava o máximo:“Cine Royal”, tanto pelo ambiente pequeno e familiar. Quanto aos filmes, não me critiquem aqueles que conheciam o Cine Royal. Tinha 13 e 14 anos! E com 13 e 14 anos é impossível gostar de Godard.

Sempre gostei de cinema e confesso que sempre tive grande vontade de trabalhar com isso. Mas a minha condição financeira não me permitia nem ao menos sonhar com tal coisa. E foi assim que escolhi, sem nenhum arrependimento, cursar a faculdade de Biblioteconomia. Digo sem arrependimento, primeiramente, pelos grandes e verdadeiros amigos que fiz e que ainda tenho contato, contrariando todas as estatísticas, que sabe lá Deus de onde vem, dizem que depois da formatura os laços são perdidos. Amigos com quem compartilho muito minha caminhada e vice-versa, devido aos óbvios e corriqueiros imprevistos da vida. E por último, porque é a atividade de bibliotecário que me dá os recursos financeiros que me permitem, hoje, cursar cinema na Escola Livre de Cinema. E é aqui que eu quero chegar.

Depois de uma temporada punk, que se arrastou por um ano e meio de estudos árduos, consegui abandonar o meu antigo emprego de auxiliar de biblioteca, digno de um salário mínimo, para trabalhar como funcionário público, com um salário um pouco melhor. Estabilizado, poderia pensar e realmente precisava de uma atividade que trouxesse um pouco mais de alegria e lazer para minha pacata vida entre livros científicos e teorias inventadas. E por que não ser o cinema essa fuga da realidade, pensei! E foi aí que caí na Escola Livre de Cinema, perfeito para o que eu queria. O curso tem a duração de apenas um ano, ou seja, dois semestres e a promessa de realização de três curtas. Um no fim do primeiro semestre e dois durante o segundo.

Em agosto já estava matriculado e me adrentando no mundo imaginário do cinema. Quando me foi perguntado qual era minha pretensão, a resposta foi simples: “nenhuma”. Estou feliz com a minha profissão e não quero fazer do cinema uma obrigação, ou seja, lhe legar o dever de pagar as minhas contas. O cinema seria um hobby.

Assim, na disciplina de roteiro, nos foi passado pelo professor Cláudio Costa Val a tarefa de confecção de um roteiro de curta-metragem com até 11 páginas. Meu Deus, um roteiro! Ao mesmo tempo em que é algo desafiador e empolgante, é desesperador, pois nunca fiz algo parecido na vida. Só que isso nem de longe é o problema. O problema real e imediato é: o que escrever? Pensei em várias temáticas, mas nenhuma parecia se encaixar nas 11 laudas exigidas.

Foi nesse momento que me veio uma estória que pretendia transformar em dramaturgia há alguns anos atrás. A peça era muito simples, à princípio, pois seria um diálogo de dois homens que se passaria num quartinho dos fundos de uma casa. A história se trataria de dois amigos de infância que acabaram, pelas circunstâncias da vida, seguindo caminhos distintos. Um se casa e constitui família. O outro resolve, em plena ditadura militar, aderir à guerrilha e à luta armada em busca da democracia e de melhores condições sociais de vida aos compatriotas. E que, perseguido pelo regime, encontra na casa do amigo de infância o lugar perfeito para se esconder. A peça tinha a pretensão de resgatar a ingenuidade da infância pobre dos dois, as aventuras amorosas da adolescência, as poesias e as músicas da faculdade e a separação natural que a vida nos submete em detrimento de determinadas escolhas.

Dentro dessa idéia escrevi o roteiro. Como não teria tempo de debater infância, adolescência e faculdade em 11 laudas, resolvi inserir outros elementos que trouxessem a mesma idéia principal, e que me permitisse abrir e fechar a estória no espaço delimitado. O que obviamente, não consegui. Deu 15 laudas e não existe nada na estória que eu possa tirar sem atrapalhar a trama.

Para efeito de curiosidade, terminei o roteiro ontem. Gostei da estória. Mas que autor não gosta da própria estória que escreve não é mesmo? Pelo que sei, apresentaremos o roteiro para o professor que fará a orientação e depois que toda a turma apresentar o seu roteiro, iremos escolher um para filmar no final do ano.

Vamos ver no que vai dar.